Dando corpo a um sonho tido numa noite que adormeci bêbado pendurado pelo pescoço no bordo de uma sanita nojenta numa casa de passe lá para os lados do intendente, decidimos eu e uns sócios de bebedeiras e carrispanas várias, formar uma editora que desse voz ao singelo orgulho que assola o peito dos poetas. Decidimos dar-lhe o nome de “toque rectal, edições e outras merdas”. E “toque rectal” porquê? Perguntareis vós. Simples… O toque rectal é uma coisa incómoda (quem já o fez sabes disso) mas ser enrabado é muito mais (penso eu, outros falarão disso com mais propriedade). E como a ideia é fazê-lo aos poucos e devagarinho embora às vezes e em alguns casos sem vaselina, como pretendemos pôr-vos a pagar as edições e não nos preocuparmos em divulgar nem em distribui-las decidimos pôr esse feliz nome que me lembrei nesse fatídico dia. Sim, porque se vocês já pagaram o livro porque carga de água nos vamos preocupar com coisas chatas como divulgação, publicitação, distribuição e coisas afins? Porque carga de água havemos de nos preocupar em vos fazer apresentações condignas onde não estejamos preocupados em vender livrecos de outros autores mas sim os vossos? Sim, porque é com vocês que queremos ganhar dinheiro, não com os leitores. Os leitores é um problema vosso, andem vocês atrás deles, isso é tão enfadonho, eu fico no tal bar do intendente a beber copos e filar as coxas das gajas que pululam por lá. É que a ideia realmente fantástica é essa, tenho para mim que até devia figurar no quadro de jovens empreendedores. As editoras honestas ganham dinheiro com os leitores, fazendo divulgação, distribuição publicidade, dando relevo ao escritor, nós não, nós sabemos que vocês gostam de escrever e como tal têm o sonho de editar. Então nós a troco de uns míseros tostões mas que chegam para pagar a edição com algum lucro, cumprimos esse vosso sonho embora, pronto seja necessário o tal “toque rectal” que sabemos vos dói mas a vida tem desses sacrifícios.Por isso já sabem, mandem-me os vossos poemas e escritos…é honesto, escreve só por passatempo e acha que não tem qualidade para ser editado? Deixe lá isso, nós editamos não se preocupe com isso, desde que pague claro. Precisa de uns livros para tentar vender aos amigos? Mas é claro, deixa ficar o respectivo cheque e leva os que quiser. Pois é, que nós não corremos riscos, essa é a sua parte do negócio. Agora diga lá, somos ou não somos uns espertalhões? E além de espertalhões ainda dizemos e escrevemos para quem quiser ouvir e ler que somos intelectuais, pois não seremos? Com ideias destas…!Por isso já sabe, “toque rectal” é o que precisa…já plantou uma árvore? Já fez um filho? Então agora só lhe falta o “toque rectal”…
quinta-feira, 30 de abril de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
retalho XVIII , sem hora de partida

Ao longo do corredor comprido ladeado de armários em chapa, Francisco caminhava com os olhos postos no chão, observando os ladrilhos sujos nas intersecções com o olhar parado e a mente em rebuliço pelo aviso repentino para ir á direcção da escola. O contínuo que agora lhe guiava e marcava a cedência dos passos entrara de repelão pela sala interrompendo a aula:
- O Francisco tem que ir já á direcção – dissera.
- Mas, o que foi que eu fiz? - Apoquentara-se o Francisco com tão inusitada intimação que normalmente significava castigo por alguma malandrice.
- Nada filho, o director é que quer falar contigo – respondera o contínuo em tom condescendente. O tom do contínuo descansara-o pela desmesurada candura que o surpreendeu, pondo-se assim em marcha, atrás do contínuo após assentimento do professor
Mas no caminho ia pensativo pelos motivos da solicitação, divagando a mente e o olhar pelo longo corredor do liceu, olhou para lá das vidraças observando as árvores fustigadas pelo vento, as balizas sem rede do campo de futebol, o lamento da chuva escorrendo no vidros sujos. Olhou as unhas para ver se estavam limpas que o director era exigente nessas coisas, sacudiu a roupa tentando retirar restos da borracha dos lápis que se pegavam às malhas. Apareceu-lhe na testa a mesma ruga horizontal que a mãe, a Odete, fazia quando as preocupações eram muitas. Aos poucos começou a sentir o aperto e o frio do tempo lá fora a invadi-lo numa premonição que não lhe augurava nada de bom. O seu corpo era franzino, não herdara a corpulência do pai, antes a beleza serena da mãe. A intuição, a candura no olhar faziam lembrar sempre a mãe a quem os conhecia:
- Ó Odete, para fazer este não precisaste da ajuda do “home”, ele não tem nada do teu Artur. Fizeste-o sozinha, não? – E riam as comadres na algazarra dos fins de missa.
Chegaram ao gabinete do director, o contínuo bateu á porta e abriu-a de seguida:
- Já tá aqui o Francisco Sr. director – anunciou respeitosamente.
- Ele que entre Sr. Lopes – respondeu lá de dentro o director em voz grave e séria.
O Francisco sentia os joelhos a fraquejarem, entrou a medo e desconfiado, mirou o director sentado a pigarrear perante os inúmeros papéis que ocupavam a secretária.
- Senta-te – ordenou o director tentando colocar um tom de voz claro e sem a aspereza que a caracterizava. Francisco obedeceu, sentou-se na larga cadeira com as mãos crispadas entre as pernas, ombros caídos, olhar vago sem pronunciar palavra.
- olha filho – começou o director – aconteceu algo muito mau mas quero que tenhas noção que a vida é mesmo assim, é feita de partidas e chegadas. Algo de divino que não entendemos faz as suas escolhas e nós aqui em baixo resta-nos aceitar e pensar sempre que é a sua vontade. Não nos devemos nunca revoltar, antes aceitar e glorificar a sua presença sobre nós.
Francisco não estava a perceber nada dos preâmbulos do director, fixou o olhar no pisa papéis em vidro grosso com um escorpião embalsamado, a longa cauda pontiaguda, a cor preta do lacrau… enquanto o director continuava o discurso de afago desconcertante de dores que ainda não sentia mas sentia prestes e numa explosão perguntou:
- Mas afinal o que aconteceu á minha mãe? - Perguntou já num tom apavorado como se as palavras do director tivessem feito luz no seu íntimo.
- Nada filho… foi o teu pai, faleceu esta manhã – desabafou o director quase num suspiro de alívio. De repente uma janela cedeu ao esforço do vento e abriu intempestivamente, pondo os papéis da secretária num redemoinho, o director levantou-se a correr a fechá-la, e a apanhar os papéis espalhados no chão. O Francisco ficou indiferente, envergonhado pelo alivio que sentira ao saber que não tinha sido a mãe, o pai nunca foi o companheiro que muitas vezes quisera mas naquele momento lembrava-se do balão que lhe dera no dia da romaria já há uns anos, lembrava-se de quando ele o ensinara a andar de bicicleta, a sensação de segurança quando ainda bebé lhe transmitiam os seus braços fortes, o apelo másculo do filho pelo pai, diferente do apelo maternal da mãe, do mimo e dos afectos. As lágrimas corriam-lhe profusas e silenciosas, herdara da mãe o silêncio do choro, fixou de novo o olhar no pisa papéis numa visão enevoada pela lágrima teimosa que lhe pendia dos olhos rasgados, o escorpião lá continuava imóvel mas feroz como a fama que tinha.
- O Francisco tem que ir já á direcção – dissera.
- Mas, o que foi que eu fiz? - Apoquentara-se o Francisco com tão inusitada intimação que normalmente significava castigo por alguma malandrice.
- Nada filho, o director é que quer falar contigo – respondera o contínuo em tom condescendente. O tom do contínuo descansara-o pela desmesurada candura que o surpreendeu, pondo-se assim em marcha, atrás do contínuo após assentimento do professor
Mas no caminho ia pensativo pelos motivos da solicitação, divagando a mente e o olhar pelo longo corredor do liceu, olhou para lá das vidraças observando as árvores fustigadas pelo vento, as balizas sem rede do campo de futebol, o lamento da chuva escorrendo no vidros sujos. Olhou as unhas para ver se estavam limpas que o director era exigente nessas coisas, sacudiu a roupa tentando retirar restos da borracha dos lápis que se pegavam às malhas. Apareceu-lhe na testa a mesma ruga horizontal que a mãe, a Odete, fazia quando as preocupações eram muitas. Aos poucos começou a sentir o aperto e o frio do tempo lá fora a invadi-lo numa premonição que não lhe augurava nada de bom. O seu corpo era franzino, não herdara a corpulência do pai, antes a beleza serena da mãe. A intuição, a candura no olhar faziam lembrar sempre a mãe a quem os conhecia:
- Ó Odete, para fazer este não precisaste da ajuda do “home”, ele não tem nada do teu Artur. Fizeste-o sozinha, não? – E riam as comadres na algazarra dos fins de missa.
Chegaram ao gabinete do director, o contínuo bateu á porta e abriu-a de seguida:
- Já tá aqui o Francisco Sr. director – anunciou respeitosamente.
- Ele que entre Sr. Lopes – respondeu lá de dentro o director em voz grave e séria.
O Francisco sentia os joelhos a fraquejarem, entrou a medo e desconfiado, mirou o director sentado a pigarrear perante os inúmeros papéis que ocupavam a secretária.
- Senta-te – ordenou o director tentando colocar um tom de voz claro e sem a aspereza que a caracterizava. Francisco obedeceu, sentou-se na larga cadeira com as mãos crispadas entre as pernas, ombros caídos, olhar vago sem pronunciar palavra.
- olha filho – começou o director – aconteceu algo muito mau mas quero que tenhas noção que a vida é mesmo assim, é feita de partidas e chegadas. Algo de divino que não entendemos faz as suas escolhas e nós aqui em baixo resta-nos aceitar e pensar sempre que é a sua vontade. Não nos devemos nunca revoltar, antes aceitar e glorificar a sua presença sobre nós.
Francisco não estava a perceber nada dos preâmbulos do director, fixou o olhar no pisa papéis em vidro grosso com um escorpião embalsamado, a longa cauda pontiaguda, a cor preta do lacrau… enquanto o director continuava o discurso de afago desconcertante de dores que ainda não sentia mas sentia prestes e numa explosão perguntou:
- Mas afinal o que aconteceu á minha mãe? - Perguntou já num tom apavorado como se as palavras do director tivessem feito luz no seu íntimo.
- Nada filho… foi o teu pai, faleceu esta manhã – desabafou o director quase num suspiro de alívio. De repente uma janela cedeu ao esforço do vento e abriu intempestivamente, pondo os papéis da secretária num redemoinho, o director levantou-se a correr a fechá-la, e a apanhar os papéis espalhados no chão. O Francisco ficou indiferente, envergonhado pelo alivio que sentira ao saber que não tinha sido a mãe, o pai nunca foi o companheiro que muitas vezes quisera mas naquele momento lembrava-se do balão que lhe dera no dia da romaria já há uns anos, lembrava-se de quando ele o ensinara a andar de bicicleta, a sensação de segurança quando ainda bebé lhe transmitiam os seus braços fortes, o apelo másculo do filho pelo pai, diferente do apelo maternal da mãe, do mimo e dos afectos. As lágrimas corriam-lhe profusas e silenciosas, herdara da mãe o silêncio do choro, fixou de novo o olhar no pisa papéis numa visão enevoada pela lágrima teimosa que lhe pendia dos olhos rasgados, o escorpião lá continuava imóvel mas feroz como a fama que tinha.
terça-feira, 28 de abril de 2009
7 pecados capitais - Ira

Jugular inflamada
De vermelhos repassada
Seios desabridos aos repelões
Maiores que em feira de melões:
“Trastes, milhafres de eira alheia”
Olho arregalado de raiva inteira:
“Farsantes hipócritas maltratantes”
A todos clama a todos os instantes
Verso incontido, rasgo sem medida
Sem meta à vista nem hora de partida
Ajoelha-se à virgem e pede castigo
Para os incautos que lhe não dão abrigo
Das usuras mil vezes repetidas
Trastes, aquém e além paridas
Brada aos céus tonitruante
Mas também sabe ser pedante
Congrega conquistas amorais
Como colecciona castiçais
De chamas perenes ao vento
Tão frágil…o irado lamento…
De vermelhos repassada
Seios desabridos aos repelões
Maiores que em feira de melões:
“Trastes, milhafres de eira alheia”
Olho arregalado de raiva inteira:
“Farsantes hipócritas maltratantes”
A todos clama a todos os instantes
Verso incontido, rasgo sem medida
Sem meta à vista nem hora de partida
Ajoelha-se à virgem e pede castigo
Para os incautos que lhe não dão abrigo
Das usuras mil vezes repetidas
Trastes, aquém e além paridas
Brada aos céus tonitruante
Mas também sabe ser pedante
Congrega conquistas amorais
Como colecciona castiçais
De chamas perenes ao vento
Tão frágil…o irado lamento…
segunda-feira, 27 de abril de 2009
7 Pecados Capitais - Inveja
7 pecados capitais - Vaidade

Toca a campainha três vezes
Toca três vezes o palato
Três vezes no céu-da-boca
Três vezes na falha do dente
Três grunhidos de deleite
Três estalos palatinos
Três versos paladinos
Três declamados por lábio leporino
Três a rimar com hino
Três doces lamentos
Três dedos em movimento
Tocam três vezes
Três bastam
Três…a conta que deus fez
Três… soberba, presunção e vaidade
Três repetições
Três alucinações
Três orgasmos...de nada.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Dia Mundial Da Hipocrisia

Dia mundial da terra, mais um dia em que se exaltam as virtudes, renovam-se promessas, arrebanha-se vontades porfiadas pelo socialmente correcto, porque é bem falar do verde dos montes, das águas cristalinas, do buraco de ozono (mesmo que muitos não façam a pequena ideia do que isso é), do degelo do árctico, da morte precipitada dos ursos polares, da extinção dos gorilas de dorso prateado, do tigre da Sibéria, do rinoceronte africano. Àh, e do lince da Málcata (já me esquecia deste). Se me esqueci de algum, envio daqui as minhas desculpas aos visados. E hoje, não há uma daquelas iniciativas fabulosas tipo desligar a luz no mundo inteiro a uma determinada hora durante uns minutos? Ou daquelas (uma das minhas preferidas) de fechar o centro das cidades ao transito e pôr a populaça a andar de bicicleta? Não? Que pena, porque se houvesse amanhã retomava a minha vida com a consciência tranquila, gozando os prazeres do meu carro, as luzes fantásticas do meu jardim e a vida segue em frente. Podia até quem sabe comprar uma pele de zibelina daquelas electrocutadas pelo ânus para que a pele saia perfeita. São dias fantásticos estes dias mundiais de qualquer coisa, gosto pronto, especialmente daqueles dedicados a uma doença qualquer como a sida por exemplo e nesse dia fala-se dos milhões de infectados por essa África fora, os abutres da comunicação social arribam hospitais fora em busca de depoimentos daqueles de fazer chorar as pedras da calçada. E nesse dia temos muita pena deles… mas o meu preferido mesmo, é um qualquer que não me lembro o nome mas contra a fome, e lá vêm as imagens dos pretinhos de barriga inchada agarrados aos úberes secos de mães esquálidas. Embora aí me irrite porque passam isso no telejornal, e normalmente estou a jantar e aquelas moscas varejeiras que volteiam os ranhosos dão-me um certo asco, mas lá faço um “tsc, tsc” de comiseração e ataco a fumegante arrozada com um batalhão de lagostins em parada, e mando o puto mudar para a sport Tv que deve estar a começar o Benfica. No fim do jantar separo o lixo ciente dos meus deveres sociais. E nesse dia tenho muita pena deles… dos meus filhos que mais sensíveis com essas coisas ficaram agoniados com a visão das moscas.
Sou de opinião que deve haver todos os dias um dia mundial mas de todas as maleitas, todos os dias, reflectindo todos os dias nessas coisas que me (não) tiram o sono. Reflectíamos no mesmo dia, todos os dias sobre a terra, sobre o mar, sobre a sida, sobre a fome, sobre a pobreza, sobre o aquecimento global… (deixo ficar as reticências, se alguém se lembrar de mais algum é só acrescentar). E propunha-lhe um nome…todos os dias seriam esse dia, já viram que boa ideia, 365 dias por ano, 366 nos anos bissextos e acabávamos com esta confusão de dias diferentes, um do pai, outro da mãe, avozinho, do cão, do gato e dos pobres(?) vejam lá… De manhã mal me levanto a primeira pergunta que faço à primeira pessoa que encontro é: “desculpe, hoje é dia mundial de quê?” e lá me incuto da necessária reflexão sobre o assunto em questão. Por isso vamos dizer BASTA, a partir de agora todos os dias são dias de todas as preocupações que assolam o mundo. Eu sou realmente uma pessoa espectacular, inteligente e acima de tudo preocupado. Eu propunha-lhe o nome de … DIA MUNDIAL DA HIPOCRISIA.
Sou de opinião que deve haver todos os dias um dia mundial mas de todas as maleitas, todos os dias, reflectindo todos os dias nessas coisas que me (não) tiram o sono. Reflectíamos no mesmo dia, todos os dias sobre a terra, sobre o mar, sobre a sida, sobre a fome, sobre a pobreza, sobre o aquecimento global… (deixo ficar as reticências, se alguém se lembrar de mais algum é só acrescentar). E propunha-lhe um nome…todos os dias seriam esse dia, já viram que boa ideia, 365 dias por ano, 366 nos anos bissextos e acabávamos com esta confusão de dias diferentes, um do pai, outro da mãe, avozinho, do cão, do gato e dos pobres(?) vejam lá… De manhã mal me levanto a primeira pergunta que faço à primeira pessoa que encontro é: “desculpe, hoje é dia mundial de quê?” e lá me incuto da necessária reflexão sobre o assunto em questão. Por isso vamos dizer BASTA, a partir de agora todos os dias são dias de todas as preocupações que assolam o mundo. Eu sou realmente uma pessoa espectacular, inteligente e acima de tudo preocupado. Eu propunha-lhe o nome de … DIA MUNDIAL DA HIPOCRISIA.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Retalho XVII memórias da rádio

Jorge Maria, ficou sentado a pensar na revelação que o sargento acabava de proferir, mirou o retrato a carvão dos pais a dominar o espaço por trás da secretária, as estantes repletas de livros carcomidos pela poeira do tempo que decoravam a sala, a pesada secretária do pai em tampo de couro lustroso, os seus tinteiros e aparos em prata, a mancha ao lado da porta que teimava em não sair apesar de lavado e esfregado tantos anos, mirou o tecto em gesso que acusava os anos sem restauro mas mantinha o ar austero no debruado manual que o decorava. Tentava pensar rapidamente:
- E o que tenho eu a ver com isso? Disparou a pergunta como um dardo agudo e seco.
- Ò Senhor Jorge, todos sabemos que o Sr. tem contas a ajustar com essas pessoas, pelo menos assim o pensa. Respondeu o sargento.
- Mas porque diz que tenho contas a ajustar com eles? Há quase quinze anos que não venho à terra e no dia a seguir em que chego o facto de eles morrerem faz-me merecer a vossa visita?
- Por isso mesmo, a terra estava calma, de repente chega o Sr e acontecem estas mortes todas? Todos sabemos a circunstancia da morte do Sr. seu pai, a sua saída extemporânea. Isso faz-me pensar em si como suspeito.
- Mas o que tem a morte do meu pai a ver com a morte destes infelizes Sr. Sargento?
O sargento calou-se, sentindo que tinha caído na armadilha, ajeitou o largo cinturão em volta da barriga, olhou desconfortável o criado mudo por trás do Jorge. Investiu noutra direcção:
- Onde estavam os dois hoje a partir das 7.30 da manhã? Perguntou muito resoluto no seu papel de investigador.
- O Sr. não respondeu á minha pergunta Sargento. Respondeu o Jorge.
- Quem está aqui para responder a perguntas é o Sr. e não eu…atacou o Sargento
- Nesse caso o Sr. ponha-se fora da minha casa e só falarei consigo quando estiver munido de uma intimação para recolher o meu depoimento. Retrucou o Jorge.
- Pensei que podíamos levar isto a bem Sr. Jorge mas pelos vistos o Sr. é tão teimoso como o seu pai. Quando proferiu isto o velho António dá um passo em frente com os olhos munidos de fúria assassina, Jorge levantou o braço impedindo o avanço dele. Levantou-se e sem proferir uma palavra dirigiu-se á porta do escritório, abriu-a, não ficou surpreendido por dar de caras com a sua irmã Joana do outro, virou-se para trás e fez um sinal com a cabeça para o sargento, que compreendendo o gesto se pôs em movimento em direcção á saída:
- Eu voltarei Sr. Jorge e desta vez será pior para si ou para esse seu maldito criado mudo. Ameaçou entre dentes mal disfarçando a raiva que sentia pela humilhação sofrida.
- António, acompanha estes senhores ao portão e volta aqui por favor. Disse em voz seca o Jorge. O António naquele seu andar silencioso assentiu com a cabeça, deu um esgar de satisfação e empurrou leve mas firme o braço do soldado que deu uma sacudidela e encaminharam-se para a saída.
Na volta António entrou de novo no escritório, mirou o Jorge de alto a baixo depois olhou para Joana, mudo abriu os braços dirigindo-se ao Jorge, este entre o surpreendido e o agradecido acolhe aquele abraço e deixa-se envolver pelos braços rijos e fortes de António. Lembrou-se que fora ele que o ensinara a andar de bicicleta, que o ensinara a pescar. Veio-lhe á memória o olhar reprovador dele quando com a arma de pressão de ar matara um pardal. Fizera-lhe uma data de sinais, coléricos mas que ele percebera… O belo não se mata. Que saudade tivera do António fiel criado, amigo e confidente. Joana emocionada limpou uma lágrima rebelde com o avental. António mirou o Jorge e depois Joana, fez um sinal ao Jorge na direcção de Joana que este percebeu:
- Joana, importaste de sair? Joana ficava sempre furibunda quando a punham de parte, mas já sabia que nem valia a pena refilar, era assim com o pai, seria assim com o Jorge. Saiu contrafeita, fechando a porta com estrondo atrás de si. António dirigiu-se á porta encostou o ouvido nela como se assim conseguisse ouvir um indicio de que Joana ficara do outro lado a ouvir. Dirigiu-se ao grande rádio Am, ligou-o pondo o som alto o suficiente para se tornar quase incomodativo. Dirigiu-se á janela mais afastada do rádio e deu sinal a Jorge para que se acercasse. Este tinha estado o observar o António atónito, e acedeu a juntar-se-lhe no beiral da janela.
- Eu já sei quem fez isso. Ciciou António num ar triunfante e com um sorriso gaiato nos olhos que Jorge nunca tinha visto. Deu um salto para trás num misto de surpresa e incredulidade não pelo que disse…mas por dizer.
- Mas… tu… tu falas? A sala envolveu-se num cheiro espesso de cachimbo, até o travo da água-de-colónia do pai se sentia. Percebeu então porque sempre que o António se fechava com o pai no escritório ouvia o som rachado daquele rádio a transmitir emissões de antenas longínquas.
- E o que tenho eu a ver com isso? Disparou a pergunta como um dardo agudo e seco.
- Ò Senhor Jorge, todos sabemos que o Sr. tem contas a ajustar com essas pessoas, pelo menos assim o pensa. Respondeu o sargento.
- Mas porque diz que tenho contas a ajustar com eles? Há quase quinze anos que não venho à terra e no dia a seguir em que chego o facto de eles morrerem faz-me merecer a vossa visita?
- Por isso mesmo, a terra estava calma, de repente chega o Sr e acontecem estas mortes todas? Todos sabemos a circunstancia da morte do Sr. seu pai, a sua saída extemporânea. Isso faz-me pensar em si como suspeito.
- Mas o que tem a morte do meu pai a ver com a morte destes infelizes Sr. Sargento?
O sargento calou-se, sentindo que tinha caído na armadilha, ajeitou o largo cinturão em volta da barriga, olhou desconfortável o criado mudo por trás do Jorge. Investiu noutra direcção:
- Onde estavam os dois hoje a partir das 7.30 da manhã? Perguntou muito resoluto no seu papel de investigador.
- O Sr. não respondeu á minha pergunta Sargento. Respondeu o Jorge.
- Quem está aqui para responder a perguntas é o Sr. e não eu…atacou o Sargento
- Nesse caso o Sr. ponha-se fora da minha casa e só falarei consigo quando estiver munido de uma intimação para recolher o meu depoimento. Retrucou o Jorge.
- Pensei que podíamos levar isto a bem Sr. Jorge mas pelos vistos o Sr. é tão teimoso como o seu pai. Quando proferiu isto o velho António dá um passo em frente com os olhos munidos de fúria assassina, Jorge levantou o braço impedindo o avanço dele. Levantou-se e sem proferir uma palavra dirigiu-se á porta do escritório, abriu-a, não ficou surpreendido por dar de caras com a sua irmã Joana do outro, virou-se para trás e fez um sinal com a cabeça para o sargento, que compreendendo o gesto se pôs em movimento em direcção á saída:
- Eu voltarei Sr. Jorge e desta vez será pior para si ou para esse seu maldito criado mudo. Ameaçou entre dentes mal disfarçando a raiva que sentia pela humilhação sofrida.
- António, acompanha estes senhores ao portão e volta aqui por favor. Disse em voz seca o Jorge. O António naquele seu andar silencioso assentiu com a cabeça, deu um esgar de satisfação e empurrou leve mas firme o braço do soldado que deu uma sacudidela e encaminharam-se para a saída.
Na volta António entrou de novo no escritório, mirou o Jorge de alto a baixo depois olhou para Joana, mudo abriu os braços dirigindo-se ao Jorge, este entre o surpreendido e o agradecido acolhe aquele abraço e deixa-se envolver pelos braços rijos e fortes de António. Lembrou-se que fora ele que o ensinara a andar de bicicleta, que o ensinara a pescar. Veio-lhe á memória o olhar reprovador dele quando com a arma de pressão de ar matara um pardal. Fizera-lhe uma data de sinais, coléricos mas que ele percebera… O belo não se mata. Que saudade tivera do António fiel criado, amigo e confidente. Joana emocionada limpou uma lágrima rebelde com o avental. António mirou o Jorge e depois Joana, fez um sinal ao Jorge na direcção de Joana que este percebeu:
- Joana, importaste de sair? Joana ficava sempre furibunda quando a punham de parte, mas já sabia que nem valia a pena refilar, era assim com o pai, seria assim com o Jorge. Saiu contrafeita, fechando a porta com estrondo atrás de si. António dirigiu-se á porta encostou o ouvido nela como se assim conseguisse ouvir um indicio de que Joana ficara do outro lado a ouvir. Dirigiu-se ao grande rádio Am, ligou-o pondo o som alto o suficiente para se tornar quase incomodativo. Dirigiu-se á janela mais afastada do rádio e deu sinal a Jorge para que se acercasse. Este tinha estado o observar o António atónito, e acedeu a juntar-se-lhe no beiral da janela.
- Eu já sei quem fez isso. Ciciou António num ar triunfante e com um sorriso gaiato nos olhos que Jorge nunca tinha visto. Deu um salto para trás num misto de surpresa e incredulidade não pelo que disse…mas por dizer.
- Mas… tu… tu falas? A sala envolveu-se num cheiro espesso de cachimbo, até o travo da água-de-colónia do pai se sentia. Percebeu então porque sempre que o António se fechava com o pai no escritório ouvia o som rachado daquele rádio a transmitir emissões de antenas longínquas.
Hora de ponta

Tanto tempo no trajecto
Ainda sem meta à vista,
De frente com o tempo
Raso de chão calcorreado
Pisado na esfera de palmilhas gastas
Na pressa de trajectos sem janta á vista
Na ditadura do ponteiro das horas
Do tempo que dita a estrada
Nos congestionamentos
Que volteiam a norte
Em encruzilhada cardeal
Do tempo em espera
Subtilezas de quem, apressado
Rodeia o moribundo
Sem hora para esperar
Que a morte lhe bata á porta.
Zebra de passadeira,
Buzina ensandecida
Escape roto
Autocarro em queda livre
Avenidas
Ruas e ruelas
Becos de mão estendida
Trôpegos de vida parida
Sem saída os mendigos
Que já foram meninos
Mortos…em contramão
Relógio que dita o tempo
Do tempo que se perdeu
Com o morto que na desdita
Tempo perdeu…aos que a casa voltam
Ainda sem meta à vista,
De frente com o tempo
Raso de chão calcorreado
Pisado na esfera de palmilhas gastas
Na pressa de trajectos sem janta á vista
Na ditadura do ponteiro das horas
Do tempo que dita a estrada
Nos congestionamentos
Que volteiam a norte
Em encruzilhada cardeal
Do tempo em espera
Subtilezas de quem, apressado
Rodeia o moribundo
Sem hora para esperar
Que a morte lhe bata á porta.
Zebra de passadeira,
Buzina ensandecida
Escape roto
Autocarro em queda livre
Avenidas
Ruas e ruelas
Becos de mão estendida
Trôpegos de vida parida
Sem saída os mendigos
Que já foram meninos
Mortos…em contramão
Relógio que dita o tempo
Do tempo que se perdeu
Com o morto que na desdita
Tempo perdeu…aos que a casa voltam
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Um sítio perfeito para dizer que te amo

Há sítios perfeitos para dizer que te amo,
No alto de Santa Luzia com Viana aos pés
O lima a espreguiçar-se oceano dentro
Colorir-te de esperança nesse verde que és.
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
No Alentejo em seara de loiro trigo
Encontrar esse infinito nos teus olhos
Saborear esses cheiros e sabores contigo
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Terra bruta pelo esforço amainada
Devorar as vinhas do teu corpo deleitado
Nas veredas do Douro, de lágrimas sublimada.
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Do alto da Serra de Cerveira, avisto o mar
O infinito que o teu amor abarca
Teus lábios no meu ouvido a sussurrar
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
A serra do Soajo, afluente granítico do Geres
Se Deus existisse dir-lhe-ia que tu e essa montanha
São as coisas mais belas que ele fez.
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
No labirinto das ravinas erectas sobre o mar
Da alentejana costa onde sempre que o sol se põe
Há mil motivos para te amar
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Entre lençóis suados, e almofadas sufocantes
Gritos de esperanto de amores clandestinos
De traços que compõem as historias de amantes
Eternos que somos…
No alto de Santa Luzia com Viana aos pés
O lima a espreguiçar-se oceano dentro
Colorir-te de esperança nesse verde que és.
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
No Alentejo em seara de loiro trigo
Encontrar esse infinito nos teus olhos
Saborear esses cheiros e sabores contigo
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Terra bruta pelo esforço amainada
Devorar as vinhas do teu corpo deleitado
Nas veredas do Douro, de lágrimas sublimada.
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Do alto da Serra de Cerveira, avisto o mar
O infinito que o teu amor abarca
Teus lábios no meu ouvido a sussurrar
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
A serra do Soajo, afluente granítico do Geres
Se Deus existisse dir-lhe-ia que tu e essa montanha
São as coisas mais belas que ele fez.
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
No labirinto das ravinas erectas sobre o mar
Da alentejana costa onde sempre que o sol se põe
Há mil motivos para te amar
Há sítios perfeitos para dizer que te amo
Entre lençóis suados, e almofadas sufocantes
Gritos de esperanto de amores clandestinos
De traços que compõem as historias de amantes
Eternos que somos…
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Sabe-me a sal o teu porão

Deixa-me descer ao teu porão,
Não quero mais ser âncora,
Quero flutuar
Pelo mar bravio do teu corpo
E afundar-me no precipício da tua intimidade.
Rasgar-te o ventre
Como quilha contra a maré,
Enfunar as velas em contra ciclo
Do vento norte.
Tomar tua boca como gomo de citrino
Que refresca e sara as feridas
Da longa viajem,
Saciar em teus seios a sede de água doce
Do teu corpo que ondula a cada vaga do desejo
Que nos assola.
No teu ventre procuro a noite
De águas plácidas em calmaria,
Lua ao largo em reflexos de prata
Que se estendem pelas praias de areia
Quente do meu corpo.
Quando entro no teu porão
Em vagas ondulantes,
Sou pirata do teu mar,
Corsário destemido
Em busca de abrigo da longa jornada
Desse mar sem fim,
Cabo das tormentas
Que vira Boa-Esperança,
No reencontro cálido
Do Atlântico com o Indico,
Do Pacifico quente na dobra da patagónia
Ao encontro do frio do pólo.
Suavizamos as marés nesse encontro,
Celebramos cada reencontro
Em investidas ondulantes
Que bebemos nos lábios,
Regatos de amor que alimentam oceanos.
Sabe-me a oceano o teu porão salgado,
Sabe-me a infinito a quilha da tua vontade.
Não quero mais ser âncora,
Quero flutuar
Pelo mar bravio do teu corpo
E afundar-me no precipício da tua intimidade.
Rasgar-te o ventre
Como quilha contra a maré,
Enfunar as velas em contra ciclo
Do vento norte.
Tomar tua boca como gomo de citrino
Que refresca e sara as feridas
Da longa viajem,
Saciar em teus seios a sede de água doce
Do teu corpo que ondula a cada vaga do desejo
Que nos assola.
No teu ventre procuro a noite
De águas plácidas em calmaria,
Lua ao largo em reflexos de prata
Que se estendem pelas praias de areia
Quente do meu corpo.
Quando entro no teu porão
Em vagas ondulantes,
Sou pirata do teu mar,
Corsário destemido
Em busca de abrigo da longa jornada
Desse mar sem fim,
Cabo das tormentas
Que vira Boa-Esperança,
No reencontro cálido
Do Atlântico com o Indico,
Do Pacifico quente na dobra da patagónia
Ao encontro do frio do pólo.
Suavizamos as marés nesse encontro,
Celebramos cada reencontro
Em investidas ondulantes
Que bebemos nos lábios,
Regatos de amor que alimentam oceanos.
Sabe-me a oceano o teu porão salgado,
Sabe-me a infinito a quilha da tua vontade.
Bracara minha

Bordada pelo verde e pelo amarelo,
Das mimosas minhotas a mais bela,
Braga sendo velha é menina de
Face morena e trigueira à janela.
Fundada no granito imperial
Roça-nos os sentidos matizados
Pelo cinzento outonal das ruas
E vielas, labirintos enrolados
Na medieval presença da velha Sé
Que austera vigia a noite dos namorados
E dos passos que a percorrem em volta
Busca das tabernas, pelo tinto inebriados.
Bebe nas ruas, e nas tabernas
Nas noites de folia, à média luz
Sobe o escadario em penitência
E ajoelha-se temente no Bom-Jesus
È lá que faz a promessa e passeia,
Namora, em andar prazenteiro
Pede graças á Virgem e ao Senhor
E vai pagá-las à Senhora do Sameiro
Dorme aos pés das serras
Recebe a brisa do mar
Que longínqua lhe chega
Desfalece a conjugar o verbo amar
Das mimosas minhotas a mais bela,
Braga sendo velha é menina de
Face morena e trigueira à janela.
Fundada no granito imperial
Roça-nos os sentidos matizados
Pelo cinzento outonal das ruas
E vielas, labirintos enrolados
Na medieval presença da velha Sé
Que austera vigia a noite dos namorados
E dos passos que a percorrem em volta
Busca das tabernas, pelo tinto inebriados.
Bebe nas ruas, e nas tabernas
Nas noites de folia, à média luz
Sobe o escadario em penitência
E ajoelha-se temente no Bom-Jesus
È lá que faz a promessa e passeia,
Namora, em andar prazenteiro
Pede graças á Virgem e ao Senhor
E vai pagá-las à Senhora do Sameiro
Dorme aos pés das serras
Recebe a brisa do mar
Que longínqua lhe chega
Desfalece a conjugar o verbo amar
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Retalho XVI, A visita

Absorta Joana arrumava a cozinha, metodicamente encastelava as bacias, limpava os pratos lavados de véspera e arrumava-os no louceiro de madeira com pequenas ripas separadoras para cada prato, as chávenas eram colocadas em pequenos ganchos suspensas pela asa, bem como os talheres meticulosamente separados pelas suas funções na gaveta devida. Na parte de baixo do armário arrumava as travessas e saladeiras. Quando se agachava para colocar uma travessa viu uns pés que reconheceu de imediato, um frio percorreu-lhe a espinha, apesar de habituada nunca conseguiu deixar de sentir esse arrepio:
- Ó António, quantas vezes é preciso dizer que não gosto que me apareças assim de repente como um gato? Pareces uma alma penada… - O António exibiu um esgar que para ela podia ser interpretado como um sorriso, fez um sinal com dois dedos por cima do ombro esquerdo e apontou para cima, de seguida unindo as palmas das mãos inclinou a cabeça sobre elas e abanou os ombros em jeito de interrogação.
- Ainda deve estar a dormir António, que lhe queres? Atirou a Joana interpretando a pergunta de António. Acto continuo o António abanou os ombros dando-lhe e entender que não era assuntos dela.
- Ó António, não vais começar agora com esses segredos com ele como fazias com o meu pai, que nunca ninguém, percebeu, isso. O empregado voltou a abanar os ombros como que não se importando com as lengalengas dela. O sino do portão tocou estridente e insistente. Joana e António entreolharam-se interrogativamente, o sino tocou novamente ainda mais insistente.
- Ó António vai lá ver quem é a estas horas, o carteiro não pode ser que é cedo.
O Velho desceu o escadario á saída da porta da cozinha, rodeou a casa pelo trilho entre os arbustos, acercando-se do portão, espreitou pelas frestas, e viu o sargento, e um soldado do posto da Guarda da aldeia. Virou-se para trás, viu o vulto do Jorge numa das janelas do piso superior, virou-se de novo e abriu repentinamente o portão, tão rápido que os dois militares deram um salto para trás. O Sargento Malheiro fumegou de impaciência e deu um passo em frente resoluto na intenção de entrar pela propriedade dentro, António moveu o tronco impedindo a sua passagem, o sargento resfolegou de impotência num ar assoberbado que lhe fazia a rotunda barriga ainda maior.
- Eu já sei que o Sr. Jorge está cá, aconteceram várias coisas sobre as quais preciso de lhe fazer umas perguntas. Disse o sargento para o António. Este manteve-se impávido, mirando o Sargento de cima da sua altura, o sol por trás da sua nuca dava um ar sinistro á imagem que o sargento mirava com os olhos semi-cerrados. As ervas altas, o longo muro empedrado, o telhado visível por cima das camélias. “que raio, em Janeiro camélias em flor? E este cheiro a tabaco de cachimbo e não está aqui ninguém a fumar” cogitava o assustado sargento, em ar furibundo com o António.
- António? – Fez-se ouvir – Abre o portão a esses senhores. O Sargento espreitou por trás dos altos ombros do António e descortinou o semblante carregado e grave de Jorge, naquela altivez que o “maldito pai” tinha. O sargento aproveitou a aberta que o desviar de António prontamente lhe proporcionou e aprestou-se a entrar na propriedade.
- Sr. Jorge, tenho pena de não lhe poder dar as boas-vindas, algo de muito grave aconteceu… - começou o sargento de imediato a falar enquanto caminhava para o Jorge de mão estendida para o cumprimentar. Jorge não retirou as mãos dos bolsos.
- Porque não falamos lá dentro Sr. Sargento? – interrompeu o Jorge virando as costas ao sargento e iniciando a sua marcha para a entrada principal da casa completamente alheio ao arfar de esforço que fazia o sargento a subir as escadas com o soldado atrás de si e o António a fechar a fila serpenteante pela estrada da casa no caminho até ao escritório. Ali chegados António estacou á porta.
- Entre António – Ordenou o Jorge.
- Não Sr. Jorge, eu queria falar consigo em privado. Retrucou o Sargento.
- O Sr. está em minha casa, e vai falar na presença de quem eu quiser…- disse o Jorge.
O Sargento olhou para o soldado olhou de novo para o Jorge e calou-se num jeito de assentimento. António entrou e ficou de pé por trás do Jorge que entretanto se sentara na poltrona que dominava a sala:
- Então os que os trás cá – perguntou o Jorge não os convidando para sentar, deixando-os numa posição incómoda face ao visível conforto do Jorge. “Maldito!”, pensou o sargento deixando transparecer esse pensamento numa centelha que não passou despercebido ao António, que lhe sorriu num esgar que o arrepiou.
- Hoje foram assassinados o Sr. Miguel Tondela de Barros e o seu motorista e mais dois moços da aldeia que trabalhavam para ele crimes que tudo indica estarem relacionados já que se deram com diferença de 2 horas entre o primeiro e o ultimo assassínio - O Jorge não transpareceu nenhuma emoção, mas o intimo dele ficou em alvoroço, o olhar pareceu perdido ao Sargento mas Jorge mirava o espelho na parede com a moldura em talha dourada onde se reflectia o rosto de António, sem emoção, sem surpresa…
- Ó António, quantas vezes é preciso dizer que não gosto que me apareças assim de repente como um gato? Pareces uma alma penada… - O António exibiu um esgar que para ela podia ser interpretado como um sorriso, fez um sinal com dois dedos por cima do ombro esquerdo e apontou para cima, de seguida unindo as palmas das mãos inclinou a cabeça sobre elas e abanou os ombros em jeito de interrogação.
- Ainda deve estar a dormir António, que lhe queres? Atirou a Joana interpretando a pergunta de António. Acto continuo o António abanou os ombros dando-lhe e entender que não era assuntos dela.
- Ó António, não vais começar agora com esses segredos com ele como fazias com o meu pai, que nunca ninguém, percebeu, isso. O empregado voltou a abanar os ombros como que não se importando com as lengalengas dela. O sino do portão tocou estridente e insistente. Joana e António entreolharam-se interrogativamente, o sino tocou novamente ainda mais insistente.
- Ó António vai lá ver quem é a estas horas, o carteiro não pode ser que é cedo.
O Velho desceu o escadario á saída da porta da cozinha, rodeou a casa pelo trilho entre os arbustos, acercando-se do portão, espreitou pelas frestas, e viu o sargento, e um soldado do posto da Guarda da aldeia. Virou-se para trás, viu o vulto do Jorge numa das janelas do piso superior, virou-se de novo e abriu repentinamente o portão, tão rápido que os dois militares deram um salto para trás. O Sargento Malheiro fumegou de impaciência e deu um passo em frente resoluto na intenção de entrar pela propriedade dentro, António moveu o tronco impedindo a sua passagem, o sargento resfolegou de impotência num ar assoberbado que lhe fazia a rotunda barriga ainda maior.
- Eu já sei que o Sr. Jorge está cá, aconteceram várias coisas sobre as quais preciso de lhe fazer umas perguntas. Disse o sargento para o António. Este manteve-se impávido, mirando o Sargento de cima da sua altura, o sol por trás da sua nuca dava um ar sinistro á imagem que o sargento mirava com os olhos semi-cerrados. As ervas altas, o longo muro empedrado, o telhado visível por cima das camélias. “que raio, em Janeiro camélias em flor? E este cheiro a tabaco de cachimbo e não está aqui ninguém a fumar” cogitava o assustado sargento, em ar furibundo com o António.
- António? – Fez-se ouvir – Abre o portão a esses senhores. O Sargento espreitou por trás dos altos ombros do António e descortinou o semblante carregado e grave de Jorge, naquela altivez que o “maldito pai” tinha. O sargento aproveitou a aberta que o desviar de António prontamente lhe proporcionou e aprestou-se a entrar na propriedade.
- Sr. Jorge, tenho pena de não lhe poder dar as boas-vindas, algo de muito grave aconteceu… - começou o sargento de imediato a falar enquanto caminhava para o Jorge de mão estendida para o cumprimentar. Jorge não retirou as mãos dos bolsos.
- Porque não falamos lá dentro Sr. Sargento? – interrompeu o Jorge virando as costas ao sargento e iniciando a sua marcha para a entrada principal da casa completamente alheio ao arfar de esforço que fazia o sargento a subir as escadas com o soldado atrás de si e o António a fechar a fila serpenteante pela estrada da casa no caminho até ao escritório. Ali chegados António estacou á porta.
- Entre António – Ordenou o Jorge.
- Não Sr. Jorge, eu queria falar consigo em privado. Retrucou o Sargento.
- O Sr. está em minha casa, e vai falar na presença de quem eu quiser…- disse o Jorge.
O Sargento olhou para o soldado olhou de novo para o Jorge e calou-se num jeito de assentimento. António entrou e ficou de pé por trás do Jorge que entretanto se sentara na poltrona que dominava a sala:
- Então os que os trás cá – perguntou o Jorge não os convidando para sentar, deixando-os numa posição incómoda face ao visível conforto do Jorge. “Maldito!”, pensou o sargento deixando transparecer esse pensamento numa centelha que não passou despercebido ao António, que lhe sorriu num esgar que o arrepiou.
- Hoje foram assassinados o Sr. Miguel Tondela de Barros e o seu motorista e mais dois moços da aldeia que trabalhavam para ele crimes que tudo indica estarem relacionados já que se deram com diferença de 2 horas entre o primeiro e o ultimo assassínio - O Jorge não transpareceu nenhuma emoção, mas o intimo dele ficou em alvoroço, o olhar pareceu perdido ao Sargento mas Jorge mirava o espelho na parede com a moldura em talha dourada onde se reflectia o rosto de António, sem emoção, sem surpresa…
quarta-feira, 15 de abril de 2009
do outro lado do espelho

Olho-me em frente ao espelho
Perscruto-me o rosto, leio o diário
Dos traços que me compõem
Todo o meu percurso solitário
Cada ruga esconde uma história
Cada traço uma aventura
As cicatrizes são testemunhas
Da vida que já me foi dura
A vida que vivi é a que quis viver
Nem os erros já lamento
Embora não me vanglorie
Que tenham trazido acrescento
Á vida que vivi, umas vezes certa
Outras em cata-vento, ou redemoinho
Preferia com os erros dos outros
Ter aprendido o meu caminho
Mas foram os meus, esses que vivi
Que umas vezes me deram alegrias
Outras tristezas, outras…não sei
Nem explicar mesmo nestas poesias.
Procuro-me ainda do lado de lá do espelho
Sigo os trilhos que a minha vida sulcou
Canais curvilíneos do meu ser em voltas
E voltas quem nem o tempo amainou
Perscruto-me o rosto, leio o diário
Dos traços que me compõem
Todo o meu percurso solitário
Cada ruga esconde uma história
Cada traço uma aventura
As cicatrizes são testemunhas
Da vida que já me foi dura
A vida que vivi é a que quis viver
Nem os erros já lamento
Embora não me vanglorie
Que tenham trazido acrescento
Á vida que vivi, umas vezes certa
Outras em cata-vento, ou redemoinho
Preferia com os erros dos outros
Ter aprendido o meu caminho
Mas foram os meus, esses que vivi
Que umas vezes me deram alegrias
Outras tristezas, outras…não sei
Nem explicar mesmo nestas poesias.
Procuro-me ainda do lado de lá do espelho
Sigo os trilhos que a minha vida sulcou
Canais curvilíneos do meu ser em voltas
E voltas quem nem o tempo amainou
sábado, 11 de abril de 2009
Devolve-me a madrugada

Na fúria insana do teu desprezo
Rasguei os versos que te plantei
Hoje, do que tenho mais saudades
É das palavras que te dediquei
Não do teu peito oferecido
Nem do teu ventre húmido
Choram-me os olhos plácidos
Pelo verso em ti colorido
E eram tão lindos os meus versos
Como o romper da aurora
Nessa madrugada que me roubaste
No limbo que me sinto agora
Prometi ao Sr. dos Santos Passos
Subi o escadario do Bom Jesus
Fiz novenas á Santa Rita
A Sto António pedi a luz
Nenhum santo me valeu
Em nenhum encontrei o versejar
Das doces palavras que te fiz
Inspirado no teu doce andar.
Revolvo-me no leito que já foi teu
Procuro-te nos espaços vazios
Perdi para sempre esse calor
De lençóis húmidos de mil cios
Não choro pelo teu triste canto
Choro por este triste fado
De te perder e contigo teres levado
Os versos que te fiz enamorado
Devolve-me as palavras que te fiz
Que te versejei ao ouvido sem pudor
Vem ao meu cantar-me sussurrante
Rasguei os versos que te plantei
Hoje, do que tenho mais saudades
É das palavras que te dediquei
Não do teu peito oferecido
Nem do teu ventre húmido
Choram-me os olhos plácidos
Pelo verso em ti colorido
E eram tão lindos os meus versos
Como o romper da aurora
Nessa madrugada que me roubaste
No limbo que me sinto agora
Prometi ao Sr. dos Santos Passos
Subi o escadario do Bom Jesus
Fiz novenas á Santa Rita
A Sto António pedi a luz
Nenhum santo me valeu
Em nenhum encontrei o versejar
Das doces palavras que te fiz
Inspirado no teu doce andar.
Revolvo-me no leito que já foi teu
Procuro-te nos espaços vazios
Perdi para sempre esse calor
De lençóis húmidos de mil cios
Não choro pelo teu triste canto
Choro por este triste fado
De te perder e contigo teres levado
Os versos que te fiz enamorado
Devolve-me as palavras que te fiz
Que te versejei ao ouvido sem pudor
Vem ao meu cantar-me sussurrante
As estrofes urdidas em amor
quinta-feira, 9 de abril de 2009
já não há andorinhas

Já não há andorinhas na primavera
Já não há sol em dia claro
Não há trevas na noite escura
Não há consolo que dê amparo
Já não há azar em dia aziago
Nem sorte em dia de descoberta do ouro
Que já não é amarelo, como prata
Em quantidade deixou de ser tesouro.
Nascem os rios no mar, morrem peixes na areia
Já não há gaivotas em terra, secam-se as fontes
Onde desaguam os rios que no mar não nascem
E sobem apressados os valados e montes.
Desmorona o pensamento na purga
Sai mestria da boca dos dementes
Perdigotos excretados na prostituição
Do engano aos pobres e doentes.
Já não vazam excrementos e quejandos
Na retrete pútrida que lhes aparou a vida
Arengam as verdades em formas fálicas
Com as quais fodem os de vida parida
Já não há sol em dia claro
Não há trevas na noite escura
Não há consolo que dê amparo
Já não há azar em dia aziago
Nem sorte em dia de descoberta do ouro
Que já não é amarelo, como prata
Em quantidade deixou de ser tesouro.
Nascem os rios no mar, morrem peixes na areia
Já não há gaivotas em terra, secam-se as fontes
Onde desaguam os rios que no mar não nascem
E sobem apressados os valados e montes.
Desmorona o pensamento na purga
Sai mestria da boca dos dementes
Perdigotos excretados na prostituição
Do engano aos pobres e doentes.
Já não vazam excrementos e quejandos
Na retrete pútrida que lhes aparou a vida
Arengam as verdades em formas fálicas
Com as quais fodem os de vida parida
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Quero-te

Quero-te, com a força da terra seca
Que aspira por água, ficando fecunda
Germinando flores bravas e cheirosas
Que te adornam em pureza profunda
Quero-te como o colibri quer o néctar
Que com suavidade debica a planar
Na beleza etérea que só a simplicidade
Confere nesse acto de puro desejar
Quero-te com a força do rio bravo
Que manso e sereno corre da nascente
E num turbilhão acelera com a visão
Do mar que cálido o espera a poente
Quero-te e procuro-te como o pastor
Em busca da ovelha tresmalhada
Que abandona tudo na ânsia da noite
Encontrá-la ao romper da madrugada
Quero-te como se o tempo parasse
Algures ao dobrar de uma esquina
Da vida que já me foi dura
Encontrar em ti luz que me ilumina
Quero-te no aconchego do meu leito
Quero vida beber do teu peito
Que aspira por água, ficando fecunda
Germinando flores bravas e cheirosas
Que te adornam em pureza profunda
Quero-te como o colibri quer o néctar
Que com suavidade debica a planar
Na beleza etérea que só a simplicidade
Confere nesse acto de puro desejar
Quero-te com a força do rio bravo
Que manso e sereno corre da nascente
E num turbilhão acelera com a visão
Do mar que cálido o espera a poente
Quero-te e procuro-te como o pastor
Em busca da ovelha tresmalhada
Que abandona tudo na ânsia da noite
Encontrá-la ao romper da madrugada
Quero-te como se o tempo parasse
Algures ao dobrar de uma esquina
Da vida que já me foi dura
Encontrar em ti luz que me ilumina
Quero-te no aconchego do meu leito
Quero vida beber do teu peito
Esvair no teu ventre o meu desejo
O teu corpo da minha razão o ensejo
terça-feira, 7 de abril de 2009
Poeta que não queres ser

Profetas da desgraça que tendes a palavra usada como arma de arremesso.
De falsos poetas e prosadores que confundem a arma com a guerra.
A guerra é o acto, a arma o instrumento, a palavra é a adaga
Presa no pulso, nunca arremessada que o bom soldado
Nunca se separa da sua arma, usa-a na batalha
E morre agarrado a ela, extensão do corpo
Tresmalhada pelo mesmo sangue
Que escorre profuso
No calor da luta
Refrega
Sangue
Pus.
No
Passo
Descompassado
Da palavra em riste
Desmesurada na violência
Que emprega na arte de ferir, solta
A palavra que fere mas também consola,
Afaga os tristes, liberta os oprimidos, rasga fronteiras,
Dobra a finados na hora da tua morte, dá esperança e alivio a quem
Por ti chora. A palavra é em si vida e morte, negação de si própria, atribulações
De ti e de mim, se sem ela não vives porque é com ela que queres destruir, ferir e matar?
De falsos poetas e prosadores que confundem a arma com a guerra.
A guerra é o acto, a arma o instrumento, a palavra é a adaga
Presa no pulso, nunca arremessada que o bom soldado
Nunca se separa da sua arma, usa-a na batalha
E morre agarrado a ela, extensão do corpo
Tresmalhada pelo mesmo sangue
Que escorre profuso
No calor da luta
Refrega
Sangue
Pus.
No
Passo
Descompassado
Da palavra em riste
Desmesurada na violência
Que emprega na arte de ferir, solta
A palavra que fere mas também consola,
Afaga os tristes, liberta os oprimidos, rasga fronteiras,
Dobra a finados na hora da tua morte, dá esperança e alivio a quem
Por ti chora. A palavra é em si vida e morte, negação de si própria, atribulações
De ti e de mim, se sem ela não vives porque é com ela que queres destruir, ferir e matar?
A última carta

No fim da missa de domingo
Marcaste encontro comigo
Esperei toda a semana
O momento de estar contigo
Mas saíste sem levantar os olhos
Nem sequer para mim olhaste
Num mutismo que me desgostou
E vi nos olhos que por mim não choraste
Fiquei a ver afastar-se a tua figura
Viraste as costas ao meu amor
Que te dediquei sempre sem nada pedir
Botão de rosa que nunca será flor
Não quero ser lamechas nem piegas
E dizer que me cravaste o peito
Mas digo-te aqui e agora
À nossa memória faltaste ao respeito
Sei que ainda guardas as cartas de amor
Que te dediquei no mais puro enlevo
Quero que mas devolvas na volta do correio
Esta é a última que te escrevo
Manda-me também as fotos
Que tiramos em dia de romaria
Naquela em que nos ajoelhamos
E pedimos á santa que nos casasse um dia
Sinto-me como a santa dessa imagem
No alto do andor, carregado com alegria
Própria das festas, percebo agora
Porque lhe chamam Senhora da Agonia
Marcaste encontro comigo
Esperei toda a semana
O momento de estar contigo
Mas saíste sem levantar os olhos
Nem sequer para mim olhaste
Num mutismo que me desgostou
E vi nos olhos que por mim não choraste
Fiquei a ver afastar-se a tua figura
Viraste as costas ao meu amor
Que te dediquei sempre sem nada pedir
Botão de rosa que nunca será flor
Não quero ser lamechas nem piegas
E dizer que me cravaste o peito
Mas digo-te aqui e agora
À nossa memória faltaste ao respeito
Sei que ainda guardas as cartas de amor
Que te dediquei no mais puro enlevo
Quero que mas devolvas na volta do correio
Esta é a última que te escrevo
Manda-me também as fotos
Que tiramos em dia de romaria
Naquela em que nos ajoelhamos
E pedimos á santa que nos casasse um dia
Sinto-me como a santa dessa imagem
No alto do andor, carregado com alegria
Própria das festas, percebo agora
Porque lhe chamam Senhora da Agonia
sexta-feira, 3 de abril de 2009
sim, eu confesso...
Rasgo-te, em cada palavra
Brota de mim um instinto puro
Na auto-preservação
Da minha demência,
Alimentada pelo sangue que te derramo.
Não procuro sequer desculpas.
Rasgo-te prostituído pela vontade de te possuir
Não só o corpo, antes a alma
Que me dizes minha mas que a distancia, teima
Em adiar presente nas dores que te (nos) provoco.
Rasgo-te no impulso do meu querer vagabundo e clandestino
Gumes afiados por dentro do teu bem-querer
Que sei que tens, que sei que me dedicas
No porfiar das promessas que me fazes.
Rasgo-te sem que o consintas
Quiçá pesado na desilusão da saudade
Sempre presente, nunca saciada.
Que de ti meu amor, angustia da alma,
Sorriso do meu ser
Nunca me sacio… a saudade é ela própria
O rasgo do meu querer
Brota de mim um instinto puro
Na auto-preservação
Da minha demência,
Alimentada pelo sangue que te derramo.
Não procuro sequer desculpas.
Rasgo-te prostituído pela vontade de te possuir
Não só o corpo, antes a alma
Que me dizes minha mas que a distancia, teima
Em adiar presente nas dores que te (nos) provoco.
Rasgo-te no impulso do meu querer vagabundo e clandestino
Gumes afiados por dentro do teu bem-querer
Que sei que tens, que sei que me dedicas
No porfiar das promessas que me fazes.
Rasgo-te sem que o consintas
Quiçá pesado na desilusão da saudade
Sempre presente, nunca saciada.
Que de ti meu amor, angustia da alma,
Sorriso do meu ser
Nunca me sacio… a saudade é ela própria
O rasgo do meu querer
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Não encontro o poema que te fiz

Sabes? Fiz-te um poema…
Ainda sem saber ler nem escrever
Mas já te adivinhava algures
Nas penumbras do meu ser
Nesse poema falo da promessa
Cálida em teus olhos de mar
Falo do abismo da tua boca,
Morango silvestre para eu ferrar.
Falo do cheiro do teu cabelo
Do perfume que me inebria,
Tua pele de sabor salgado
Adivinho o prazer que me daria.
Sabes? Fiz-te um poema assim
Mas não o encontro, na tal gaveta
Onde guardo a ternura da alma.
Voou nas asas de uma borboleta.
Procurei-a no verde dos campos
Emparedados nas mimosas dos montes
Procurei-o nos valados em declives
Que alimentam as águas das fontes
Procurei no cantar dos riachos
Debruados de azul em noite de luar
Cerram-se os olhos cala-se a voz
Por o teu poema não encontrar.
Sabes? Nesse poema ainda te não conhecia
Mas sabia que algures me esperavas
Queria agora declamar-te o poema que fiz,
Rendilhar de ternuras da minha voz brotadas.
Ainda sem saber ler nem escrever
Mas já te adivinhava algures
Nas penumbras do meu ser
Nesse poema falo da promessa
Cálida em teus olhos de mar
Falo do abismo da tua boca,
Morango silvestre para eu ferrar.
Falo do cheiro do teu cabelo
Do perfume que me inebria,
Tua pele de sabor salgado
Adivinho o prazer que me daria.
Sabes? Fiz-te um poema assim
Mas não o encontro, na tal gaveta
Onde guardo a ternura da alma.
Voou nas asas de uma borboleta.
Procurei-a no verde dos campos
Emparedados nas mimosas dos montes
Procurei-o nos valados em declives
Que alimentam as águas das fontes
Procurei no cantar dos riachos
Debruados de azul em noite de luar
Cerram-se os olhos cala-se a voz
Por o teu poema não encontrar.
Sabes? Nesse poema ainda te não conhecia
Mas sabia que algures me esperavas
Queria agora declamar-te o poema que fiz,
Rendilhar de ternuras da minha voz brotadas.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Retalho XV, silenciamento

O Sr. Miguel Tondela de Barros era dono de mais de meia aldeia e a outra meia prestava-lhe vassalagem por medo ou por necessidade dos préstimos que fazia á populaça ficando sempre esta a dever-lhe favores. Sentado à secretária do seu gabinete ponderava as acções a tomar perante os últimos acontecimentos. Olhou o quadro de Dali na parede em frente, onde uma mulher de seios desnudos irrompia das águas do mar entre penhascos, ofuscando com a beleza emprestada pelo pincel do artista toda a beleza selvagem em seu redor. Imergia pensativo naquele mar deambulando pelos receios e ódios que o acometiam naquele momento. Tinha que tomar medidas, já, rápidas, antes que os sócios soubessem daquela importuna visita. Tinha que juntar os dois verdugos que tinha a soldo e tomar as acções que se impunham. Ligou o intercomunicador e ordenou para a secretária:
- Ligue ao café e diga ao Tónio para vir ter comigo a minha casa imediatamente –
- Sim Dr. Miguel Barros – Miguel nunca se tinha licenciado mas impunha o tratamento de Doutor aos seus funcionários, mas normalmente todos o tratavam por patrão tal como ao seu pai antes dele.
- Diga também ao motorista que prepare o carro para me levar a casa.
Feito isto apressou-se a sair, vestiu o sobretudo de caxemira, e encaminhou-se para a saída do complexo de escritórios onde o motorista já o aguardava.
Entrou no carro e aconchegou-se nos estofos de cabedal dos bancos.
- Leva-me para casa. Ordenou ao motorista
O carro pôs-se em andamento num ronco suave, galgando a estrada fronteira ao edifício, transpôs o portão de fábrica e aumentou a velocidade na via empedrada em paralelo de granito cinzento e gasto como o tempo que se fazia sentir. Chegado ao portão de sua casa o motorista parou o carro e saiu como sempre para abrir o portão sob o olhar pensativo de Miguel Barros, ao acercar-se do portão ouviu-se um disparo, o motorista caiu sobre os joelhos, acto contínuo viu-se uma mancha de sangue a alastrar nas costas do casaco do uniforme…sem pensar Miguel Barros abre a porta repentinamente e corre na sua direcção, outro tiro…o motorista agita o corpo e cai dobrado sobre si mesmo. Antes ainda de chegar ao pé do motorista, Miguel sentiu primeiro a dor lancinante a atravessar-lhe o tronco, só depois ouviu o tiro, atirou-se para o chão de imediato na tentativa de fugir ao segundo tiro que adivinhava prestes, e novo sentiu a mesma dor insuportável atravessar-lhe a coxa direita, tenta rastejar em direcção ao carro, o terceiro tiro atinge-lhe a nuca e Miguel Barros deixou de ter dores…
Um vulto saltou da árvore em do outro lado da estrada, entra num carro ali estacionado e arranca a toda a velocidade…
Um vulto esguio afasta-se ocultado pela sombra de uma sebe…
- Rosa Maria – Fica aqui ao balcão um bocado que tenho que ir ao patrão que ele chamou-me. Diz o Tónio á mulher que esbaforida irrompe da porta de comunicação da mercaria com o café.
- porra home, e vou ficar aqui com a mercearia e o café sozinha? – retrucou a Rosa
- Faz o que te mando caralho, ou arranco-te esses dentes, não ando com paciência para te aturar. Dito isto a Rosa calou-se e o Tónio arrancou pelo café fora fechando a porta com estrondo.
- Boa coisa não é, sempre que o patrão chama vai logo lamber-lhe o cu, só tem tomates ‘pá mulher e ‘pós filhos e para os clientes bêbados. Cogitava a Rosa com seus botões, de repente ouviu um estrondo.
- Cruzes, credo – gritou a Rosa imobilizando-se de terror perante o estrondo familiar. Deu a volta ao balcão, outro estrondo… - Ai minha nossa senhora, óh Tónio – chamou num grito aflito. Abriu a porta da rua, um carro preto arrancava a toda a velocidade não dando para a Rosa lhe perceber sequer a marca, ficou especada a vê-lo desaparecer na curva logo ali, olhou para o outro lado, o seu Tónio jazia numa poça de sangue cujo cheiro quente empestava a manhã de inverno.
Do outro lado da estrada o vulto ocultou-se por trás do velho carvalho.
- Ó Artur, vai á arrecadação buscar uma chave de rodas para o empilhador – Disse o mestre mecânico ao impaciente Artur que não parava de congeminar na notícia da manhã.
Sem sequer responder Artur encaminhou-se para a grande arrecadação. Ao entrar ligou o interruptor, mas a luz não acendeu.
- Foda-se, as putas das luzes estão sempre a fundir, ainda vou ter que mudar a lâmpada, que dia de merda! Artur seguiu o seu caminho às apalpadelas para o sítio das lâmpadas, ouviu um ruído, como um arrastar de pés. Imobilizou-se, calado:
- Quem está aí? Gritou… de novo o mesmo barulho, agora mais perto…
- Foda-se, quem está aí, se é alguma brincadeira aviso já que hoje é mau dia.
Artur ainda lhe sentiu a respiração na base do pescoço, uma mão forte agarrou-o por trás torneando-lhe o pescoço com uma força de ferro, sentiu a picadela pelas costas á altura das costelas como que tentando abrir espaço entre elas, sentiu a roupa, depois a carne a ceder, o terror instalou-se nas órbitas abrindo-as desmesuradamente, quando a lamina lhe atingiu o coração Artur já estava morto pela aceleração do coração descompassado. O homem desenterrou a faca do corpo de um só gesto e limpou a lâmina nas roupas de Artur. Veio á estrada, espreitou e desapareceu no buliço dos funcionários.
Fora do muro alto que ladeava o estaleiro da fábrica o vulto alto inicia a descida do velho eucalipto, quase tão velho como a rocha do alto da Serra.
- Ligue ao café e diga ao Tónio para vir ter comigo a minha casa imediatamente –
- Sim Dr. Miguel Barros – Miguel nunca se tinha licenciado mas impunha o tratamento de Doutor aos seus funcionários, mas normalmente todos o tratavam por patrão tal como ao seu pai antes dele.
- Diga também ao motorista que prepare o carro para me levar a casa.
Feito isto apressou-se a sair, vestiu o sobretudo de caxemira, e encaminhou-se para a saída do complexo de escritórios onde o motorista já o aguardava.
Entrou no carro e aconchegou-se nos estofos de cabedal dos bancos.
- Leva-me para casa. Ordenou ao motorista
O carro pôs-se em andamento num ronco suave, galgando a estrada fronteira ao edifício, transpôs o portão de fábrica e aumentou a velocidade na via empedrada em paralelo de granito cinzento e gasto como o tempo que se fazia sentir. Chegado ao portão de sua casa o motorista parou o carro e saiu como sempre para abrir o portão sob o olhar pensativo de Miguel Barros, ao acercar-se do portão ouviu-se um disparo, o motorista caiu sobre os joelhos, acto contínuo viu-se uma mancha de sangue a alastrar nas costas do casaco do uniforme…sem pensar Miguel Barros abre a porta repentinamente e corre na sua direcção, outro tiro…o motorista agita o corpo e cai dobrado sobre si mesmo. Antes ainda de chegar ao pé do motorista, Miguel sentiu primeiro a dor lancinante a atravessar-lhe o tronco, só depois ouviu o tiro, atirou-se para o chão de imediato na tentativa de fugir ao segundo tiro que adivinhava prestes, e novo sentiu a mesma dor insuportável atravessar-lhe a coxa direita, tenta rastejar em direcção ao carro, o terceiro tiro atinge-lhe a nuca e Miguel Barros deixou de ter dores…
Um vulto saltou da árvore em do outro lado da estrada, entra num carro ali estacionado e arranca a toda a velocidade…
Um vulto esguio afasta-se ocultado pela sombra de uma sebe…
- Rosa Maria – Fica aqui ao balcão um bocado que tenho que ir ao patrão que ele chamou-me. Diz o Tónio á mulher que esbaforida irrompe da porta de comunicação da mercaria com o café.
- porra home, e vou ficar aqui com a mercearia e o café sozinha? – retrucou a Rosa
- Faz o que te mando caralho, ou arranco-te esses dentes, não ando com paciência para te aturar. Dito isto a Rosa calou-se e o Tónio arrancou pelo café fora fechando a porta com estrondo.
- Boa coisa não é, sempre que o patrão chama vai logo lamber-lhe o cu, só tem tomates ‘pá mulher e ‘pós filhos e para os clientes bêbados. Cogitava a Rosa com seus botões, de repente ouviu um estrondo.
- Cruzes, credo – gritou a Rosa imobilizando-se de terror perante o estrondo familiar. Deu a volta ao balcão, outro estrondo… - Ai minha nossa senhora, óh Tónio – chamou num grito aflito. Abriu a porta da rua, um carro preto arrancava a toda a velocidade não dando para a Rosa lhe perceber sequer a marca, ficou especada a vê-lo desaparecer na curva logo ali, olhou para o outro lado, o seu Tónio jazia numa poça de sangue cujo cheiro quente empestava a manhã de inverno.
Do outro lado da estrada o vulto ocultou-se por trás do velho carvalho.
- Ó Artur, vai á arrecadação buscar uma chave de rodas para o empilhador – Disse o mestre mecânico ao impaciente Artur que não parava de congeminar na notícia da manhã.
Sem sequer responder Artur encaminhou-se para a grande arrecadação. Ao entrar ligou o interruptor, mas a luz não acendeu.
- Foda-se, as putas das luzes estão sempre a fundir, ainda vou ter que mudar a lâmpada, que dia de merda! Artur seguiu o seu caminho às apalpadelas para o sítio das lâmpadas, ouviu um ruído, como um arrastar de pés. Imobilizou-se, calado:
- Quem está aí? Gritou… de novo o mesmo barulho, agora mais perto…
- Foda-se, quem está aí, se é alguma brincadeira aviso já que hoje é mau dia.
Artur ainda lhe sentiu a respiração na base do pescoço, uma mão forte agarrou-o por trás torneando-lhe o pescoço com uma força de ferro, sentiu a picadela pelas costas á altura das costelas como que tentando abrir espaço entre elas, sentiu a roupa, depois a carne a ceder, o terror instalou-se nas órbitas abrindo-as desmesuradamente, quando a lamina lhe atingiu o coração Artur já estava morto pela aceleração do coração descompassado. O homem desenterrou a faca do corpo de um só gesto e limpou a lâmina nas roupas de Artur. Veio á estrada, espreitou e desapareceu no buliço dos funcionários.
Fora do muro alto que ladeava o estaleiro da fábrica o vulto alto inicia a descida do velho eucalipto, quase tão velho como a rocha do alto da Serra.
à noite

fascinas-me nesse compasso
de me convidares sem me fazer convidado,
passo-me no sabor do teu regaço
nesse convite mil cheiros
que me emprestas sem me dar.
amo-te a cada toque das tuas ancas
de encontro ao meu ventre
que te dou sem emprestar
nos seios que me ofertas
coxas que me arregaçam
dás-me o cheiro selvagem
dos momentos que não me queres dar,
deambulo pelos cantos do teu corpo
nos recantos que só me ofertas
mas não dás...
quisera eu posssuir-te no amanhecer do teu corpo
entardecer no cheiro do teu ocaso
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