sexta-feira, 27 de março de 2009

Retalho XII, a rocha no alto da serra


O velho António era o velho mais velho da velha aldeia, tão velho, que os mais velhos já o conheceram velho. Nunca ninguém lhe ouvira um som, até no caminhar era silencioso, numa destreza que admirava os mais novos. De altura imponente, corpo inquebrantável, cabelo alvo e ralo, tinha no rosto os sulcos da idade, não eram rugas, antes traços de orgulho e firmeza. Corria na aldeia os mais variados boatos sobre a sua proveniência já que o António não tinha família e chegara ninguém sabe quando, era como a rocha no alto da serra, sempre esteve lá… Sentado no alpendre da arrecadação que lhe servia de casa António sentira a chegada da boa nova e o cheiro de tabaco que o envolvia dizia-lhe que a hora tinha chegado. A neblina da noite fazia-lhe companhia nos sussurros que lhe soprava ao ouvido, pela primeira vez em muitos anos António sorriu, coisa que também nunca ninguém viu. Só a aragem de vento norte que agitavam as folhas teimosas e o cheiro, sim, o cheiro que o acompanhava que não lhe pertencia mas que se lhe colava, também conheciam o seu sorriso, quase um esgar. Também lhe conheceram lágrimas na fatídica noite que lentas e silenciosas lhe escavaram ainda mais os sulcos que exibia. O António, mudo, tonto, bruto, forte, perigoso como dele falavam na aldeia, também chorava e todos os dias àquela mesma hora fazia companhia ao cheiro que lhe dava certezas. Vislumbrava ao longe do outro lado do quintal as camélias floridas da japoneira, mais alguém que manifestava a sua presença num inverno de 15 anos. O vento silvante entre as ramagens subiu de tom, o Piloto uivava algures á lua não em lamento mas em celebração, anunciando a chegada da primavera. Em Janeiro a primavera chegara à Casa Grande de Fundo de Vila, senão antecipada pelo menos por uma noite. Os grilos entoaram a sua serenata entre as ervas rasteiras, as cigarras juntaram-se-lhes no acompanhamento, malmequeres floriram nesse exacto momento. António não mostrava surpresa no seu rosto sereno, mostrava apenas contemplação na certeza desse dia. Impávido e sereno bateu nas pernas, num gesto familiar do Piloto que lhe acorreu e imobilizou-se expectante olhando-o de frente, correu a aninhar-se no ninho á ordem do mudo e fiel criado:
- Piloto, para o ninho, amanhã vai ser um longo dia…

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