quinta-feira, 23 de julho de 2009

Mushimá uêlê


Vou cumprir a promessa que te fiz
Ainda pequenino e de malas aviadas
De um dia te voltar a abraçar,
Renovar as esperanças entretanto goradas

Trazia nos olhos a espuma das cataratas,
Kwanza em queda abrupta na Duque de Bragança
Nas narinas o cheiro do capim do Cacuaco
E a velha estrada do Caxito, ainda na lembrança.

O velho embondeiro que servia de forte
Estará ainda lá orgulhoso e altaneiro?
Será ainda a testemunha silenciosa
Da flor que lhe roubei prazenteiro?

Para colocar nas missangas às cores
Que adornavam as tranças
Finas e meticulosas da namorada
Morena, que decorava as minhas lembranças.

Quero percorrer os teus caminhos,
Aferir do quanto envelhecemos
Longe um do outro, mas porém perto
Porque juntos esse caminho percorremos

Dir-te-ei da saudade, dir-me-ás das dores
Que entretanto sofreste, espúria e esventrada
Afagarei o teu chão, sorrirei ao teu povo
Dar-te-ei a mão, quando olhar a velha estrada

Lá longe, sem fim à vista, como o amor que te tenho.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um boneco sem braço


Rumo sem destino e sem dono
Sem pai, nem mãe que me aconchegue
Não tive em menino o xaile da avozinha
A fartura nunca é prato que me chegue

Morro em cada olhar de comiseração
Para reviver sem motivo aparente
Em qualquer esquina do descontentamento
Prenha de tráfego e gente que me passa rente

Tenho como amigos caixotes de lixo
Onde busco restos de felicidade,
Às vezes, um carrinho sem rodas
Rouba-me à minha realidade

Um barco sem velas, boneca de trapos,
Caderno velho, um lápis partido
Ou até quem sabe, e se deus quiser
Um hambúrguer meio mordido

Uma bola furada, lego desemparelhado
Rádio sem pilhas, boneco sem braço,
Faço dele o menino que sonho ser
Envolvo-o num terno abraço

sexta-feira, 17 de julho de 2009

No meu livro de português


Guardo a tua foto, pequenina
Entre páginas gastas pelo dedilhar
Do meu livro de português
Junto à pétala que se recusa a murchar

No canto da página tem uma marca
Para encontrar sempre o teu sorriso
O vinco que lhe fiz, marca-me a alma
E encontro-te sempre que preciso

Está na página dos advérbios de modo
Para eternizar o amor, simplesmente
Como se fosse nosso o tempo
Enganando a ausência sempre presente

Como presente é o teu sorriso
Que ecoa assim sempre no meu ser
Na marca que fiz na página da vida
No momento que entraste no meu viver

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ensaio sobre "o comer"


Já corri toda a Europa, mesmo a antiga com fronteiras que já não existem e outras que entretanto foram construídas, percorri o norte de África, conheci ainda em miúdo a África austral. Da Ásia conheço o que Istambul me deixou ver, serei sempre reconhecido ao povo turco por isso, pelos sorrisos de orelha a orelha com que me convidavam a partilhar as frugais refeições comidas em comunidade onde todos mergulhavam a mão direita para se alimentarem (a mão esquerda é falta de educação e desrespeitosa para com o sagrado oficio de comer). Acompanhavam a refeição com um chá quente e amargo feito em infusão seguindo os trâmites do sagrado Corão.
“O comer” como sói dizer-se em Portugal, é não só para nós como para quase todo o mundo antigo com tradições seculares uma arte. E não há povo como o português para classificar esse nobre acto (o de comer) como arte. Herdeiros de costumes latinos fazemos da mesa a nossa religião e ainda que façam a pé o caminho mais longo até Fátima, o farnel não pode faltar. Mas é de pés debaixo da mesa que esse culto é mais aprofundado. O pão não pode faltar, de milho de centeio, de trigo, não importa desde que não seja aquela coisa insípida de pão integral, tem é que ser encorpado e é a primeira coisa a ir para a mesa. Isso e o vinho a preceito servido de preferência em canecas profusas em quantidade. Se houverem umas azeitonas para acompanhar o pão, tanto melhor, se salgadas bem, é uma maravilha porque empurra a pinga. E começa-se assim por dar o primeiro aconchego a um estômago fustigado por uma fome de meia dúzia de horas, desde o pequeno-almoço, imaginem (!) que não se comia nada! Mas isso é frugal para quem passou tal penitência e ainda tem que esperar pela cozinheira azafamada na cozinha por isso o melhor é vir, só para abrir o apetite, uma alheira ou vá lá uns pezinhos de coentrada. O vinho assim vem em catadupa para sorver as gorduras, e deita mais pão que bem preciso é para chupar o vinho. E eis que o dono do tasco se lembra de colocar um presunto fatiado com um bocadinho de melão. O melão aqui tem o efeito de ser só “para desenjoar”. Finalmente vem a vedeta, que é o prato propriamente dito, pode ser um cabrito no forno, uma xanfana de cabra velha, um bacalhau á lagareiro ou até uma massa á lavrador, tudo caminha empurrado por uns bons copaços (ou malgas) de vinho. É a hora da felicidade suprema do português. É aqui que ele dá azo á fama de “bom garfo”, é aí que se diz que ele tem a “bicha solitária”, se for realmente um fora de série nessa arte diz-se até que ele “come como um abade” vá-se lá saber porquê. Findo o prato principal, pergunta-se se há uma sopinha, “para assentar” diz-se. Se for com feijão, couve e no meio vier uma tora (pedaço de toucinho cozido na sopa) isso é uma dádiva dos deuses e torna-a tão apetecida como o Ronaldo em pleno Santiago Barnabéu. E finalmente e só porque sobra vinho precisa de vir uma “lambeta” que é como quem diz uma sobremesa, chama-se assim porque é sobre a mesa que a queremos, doce, apelativa e carregada de açucares e outras coisas que tais que nos leva a gabar o nosso índice de colesterol a quem quiser ouvir. E finalmente vem mais uma vez, só “para desenjoar” a travessa da fruta “da época”, madura e suculenta e como o vinho já se acabou e a fruta está tão boa e pede mais uma pinga, venha de lá mais uma garrafa. Acabada a fruta fica-se a bebericar o vinho que restou, se não sobrou manda-se vir mais porque sabe bem ficar a saborear o vinho enquanto se fuma um cigarro e se conta umas anedotas badalhocas. Fumados os cigarros e bebido mais uma garrafosa de vinho é hora do cafezinho, curto e forte para alçar o palato a uma bagaceira de truz vinda lá daquele lavrador que todos conhecem, é “para deslaçar”, faz bem ao coração e á digestão. E fica-se então a bebericar findo o café mais uns quantos bagaços enquanto o índice de badalhoquice das anedotas sobe de tom.
O repasto está feito, hora de combinar um lanchezinho lá para o meio da tarde, só para conversar um pouco e provar aquele chouriço caseiro que saiu do fumeiro ainda a semana passada.
Ora digam lá se isto não é um povo de poetas?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

poema sem pontuação, nas margens do perfeito.

Eu quero o poema perfeito,
O poema declamado de rua em rua
Nas vielas e ruas escuras
Nos salões e palacetes
Quero-o até nas casas de putas
Onde o verbo no infinito
Rima com a palavra foder
Eu quero um poema sem rimas
Sem margens e marginalizado
Que cante o amor clandestino
A liberdade de boca em boca
Quero-o na boca da parteira
Que desentranha a vida
Na boca do coveiro
Que a entranha na terra escura
Eu quero um poema sem vírgulas
Nem pontos finais quero-o…
Porque sim…
Quero-o na mão que estende a esmola
E na mão que a recebe
A generosidade da palavra
No palato da sopa dos pobres
Quero o poema na chama da lareira
Quero-o no zurzir do vento norte
Quero-o no estupor da criança
De esperança estropiada
De arma á bandoleira
Quero o poema perfeito
Arma de sempre
Em desenhos de cavernas
Porque em cada linha
Ainda que corrida
Eu leio o poema da vida
Umas vezes triste, outras alegre
Mas o poema perfeito
É a alma que se desenha
E em cada alma escriturada
Sou eu que renasço
No prazer de a descobrir

terça-feira, 7 de julho de 2009

crónica sobre a condição feminina


O Sr. José era velho, tão velho que na aldeia ninguém se lembrava dele novo, como seria o seu falar ainda de rapaz ou a voz grossa de homem feito. Na tasca da aldeia onde os homens rompiam as falanges nos balcões de mármore no tamborilar impaciente da chegada de mais uma pinga dizia-se que ele devia ter mais de cem anos mas ninguém lhe dava mais de 50 e picos, 60 e coisa, 70 e tal. Uma indefinição que a jorna da terra lhe sulcava no corpo alquebrado, nos pés de galinha profundos em volta dos olhos, os rasgos no canto da boca que lhe afilavam os lábios já de si finos, e uma testa que parecia percorrida por um arado.
O Sr. José ia casar finalmente com a Zulmira, mulher recatada e trabalhadeira, filha mais nova de um grupo de 15 irmãos e que tinha ficado na casa materna até que o Senhor chamara a mãe para a última morada cumprindo assim a tradição de cuidar dos velhos pais até ao último suspiro. A Zulmira fizera também ela essa dobra na idade em que já não se consegue definir os anos que lhe passaram nas vértebras doidas da espinha dobrada no manejo da enxada. Com a morte da mãe a sua única fortuna era a vaca galega cuja afeição a tinha impedido de a mandar para o matadouro quando os úberes secaram e as forças lhe faltaram para aguentar com o cabresto e puxar o arado e ficou assim a modos que o animal de estimação da Zulmira.
O casamento foi motivo de galhofa e enriqueceu o anedotário da taberna, com piadas que punham em dúvida a virilidade do Sr. José e a capacidade que teria em meter dentro os tampos tão antigos da Zulmira, que todos juravam ceguinhos ela ainda teria por via da sua feiura que afugentara sempre os mais corajosos e afoitos. Por sua vez o Sr. José gozava da fama de mulherengo apesar da idade e contava-se à boca pequena as suas viagens à cidade grande onde gastaria o pequeno pecúlio arrecadado nos negócios fortuitos da venda de gado.
O Sr. José era homem à antiga, que se fazia respeitar e a Zulmira mesmo casada com ele continuava a tratá-lo por Sr. José e dedicava-lhe o mesmo esmero e atenção que dedicou á mãe até à hora da morte. O Sr. José no fim do almoço ia para baixo da vinha no fundo do quintal gozando a sombra prazenteira com uma vasilha de tremoços e azeitonas, um pedaço de broa e uma enfusa de vinho, a qual quando acabava o fazia dar altos berros à Zulmira
- Ó mulher enche-me a enfusa…- e lá vinha a Zulmira quintal abaixo buscar a enfusa vazia, subia o quintal, ia à adega enchia a enfusa, descia novamente o quintal deixava a enfusa ao Sr. José e subia de novo o quintal para continuar os afazeres. O Sr. José era cioso do aprumo do quintal:
- Ó mulher, é preciso podar a pereira.
-Ó mulher, é preciso capar os tomates
- Ó mulher, a alface precisa de ser colhida para ir para a feira.
E a Zulmira lá ia no seu vagar sem nunca reclamar acedendo às ordens do Sr. José.
Um dia na volta de uma das suas misteriosas viagens o Sr. José trazia no alvo colarinho uma mancha suspeita. A Zulmira indagou-o da proveniência de tão indigna nódoa.
- É sabão da barba…- respondeu o Sr. José.
- Não pode ser Sr. José, isso parece aqueles “pozes” que as mulheres finas usam – respondeu a Zulmira numa voz segura e firme que surpreendeu até ao Sr. josé.
- É sabão da barba, é sabão da barba e não se fala mais nisso. – Vociferou o Sr. José num tom de voz que não permitia réplicas. A Zulmira calou-se numa fúria que nunca tinha sentido, a vaca galega afinou a longa orelha percebendo os humores da dona. O Sr José tirou o laço, pegou na enfusa e dirigiu-se para o fundo da vinha seguido pela vaca galega. A Zulmira tinha feito á força de enxada um rego para conduzir as águas da fossa para o batatal enquanto o Sr. José estava fora, este não contando com o fundo rego caiu de frente no rego afundando o corpo em meio metro de águas pútridas e fedidas ricas em húmus para s terras, a vaca Zulmira inadvertidamente colocou-lhe a pata por cima da cabeça parando o andar lento e o olhar no fundo do quintal, abanando a cauda sobre o lombo para enxotar a mosca. A Zulmira estranhando a duração da enfusa que já devia ter esgotado foi quintal abaixo e encontrou o Sr. José afundado na merda e no mijo, já sem respirar, molhado e inerte, a vaca galega mugiu a finados…
Os anos passaram-se e a Zulmira ficou dona das extensas terras do sr. José, as estradas já estavam alcatroadas, o lar de idosos da aldeia já tinha sido fundado.
Ia pela estrada até ao cemitério decorar a campa dos seus pais e do seu Sr. José, à vinda perguntavam-lhe:
- Ó Zulmira, porque não vais para o lar, ao menos lá tinhas companhia, alguém cuidava de ti…
- Eu cá “num” preciso disso, tenho a minha galega que já me faz companhia que chegue – e continuava o seu passo quebradiço apoiado já por um cajado na berma da estrada coma galega a ladeá-la protegendo-a dos incautos motoqueiros e motoristas que aproveitavam o asfalto da estrada para se finarem nas bermas. A galega era a rocha em que contra tudo se desfazia.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

És Minha


Ilha, promontório, península
Escarpa frondosa no oceano
Declive, fundura, abismo
Vento de frente, suave abano

Rua escura, viela estreita
Granito que resiste ao tempo
Deserto o caminho, silêncio
Batido pelo vento.

Alma minha perdida
Que na mão me vieste poisar
Sei que agora de mim
Nunca mais te vais apartar

És minha, como a claridade
Pertence ao sol
Com a força do canto da manhã
Entoado pelo rouxinol

Podes da escarpa
Cair ao mar
Pode a rua
Não ir a nenhum lugar

Mas o teu amor
Esse, morre-me na palma
Da mão, renasce em mim
Sentido único da minha alma

domingo, 28 de junho de 2009

Morte em contramão


Numas águas furtadas de Lisboa, rompe as entranhas de uma mulher uma criança cujo sexo ainda não se sabe, rapidamente envolvida em plásticos e despejada num caixote do lixo.
No Sudão, na região do Darfur morre uma criança esquelética agarrada aos úberes secos da mãe já antes morta de desgosto de uma vida curta na convivência com a morte, a fome e a guerra cujas realidades foram de tal forma únicas que perece assim sem saber que algures àquilo que ela chama existir existem pessoas que lhe chamam vida.
Numa favela do Rio de Janeiro cai fulminado por uma bala perdida um menino cujo sonho era ter uma bola… Morreu sem a ter.
Num mercado em Bagdad, no Iraque um menino cujos pais não conheceu pedia esmola quando uma bomba incendiária o roubou à triste existência, morreu sem lágrimas nem lamentos.
Em Calcutá na Índia nas margens do Ganges ouve-se vindo de uma ruela o grito agudo de uma menina cuja perna é cortada a sangue frio para assim, estropiada aplacar os corações e ser merecedora da iníqua esmola.
Algures em Si-Chuan na china há um infantário com dezenas de meninas á espera que a inanição venha rápido e as livre de uma morte ainda mais sofrida.
Em todas estas crianças apesar de não se conhecerem há pontos em comum:
- Morreram sem saber dançar o “moonwalk”.
- Nunca ouviram o “thriller”.
- Nunca leram revistas de social sobre a triste vida de um milionário preto que queria ser branco.
- Ninguém lhe depositou flores na embaixada do seu país.
- Ninguém… Mas mesmo ninguém lhes chorou a morte.
- Nenhum poeta lhes dedicou um poema.
Morreram enfim, na contramão da hipocrisia atrapalhando o trânsito de mentes canoras que cantam o nascer do sol e desdenharam o seu sol-posto.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Morte ao negro


Morte ao negro da ignorância,
Morte ao negro do pedestal
Que segura a fraca e efémera esconjura,
Aviltante do livre pensamento,
Em voo raso ou altaneiro,
Porque o voo não se explica,
Apreende-se e observa-se.
Morte ao negro da intolerância,
Morte ao negro do egocentrismo,
Porque o voo da garça
Não é menos belo
Que o voo da andorinha.
Será mais nobre o voo do falcão
Que busca a caça no ar
Ou o deambular do abutre
Que espera despojos em terra?
Só quero ter asas e voar,
Intrépido e capaz
Como a águia de altos voos,
Lento e rasante
Como o albatroz
Em ponto de fuga,
Frágil e tremente
Como o beija-flor em equilíbrio.
Morte ao negro de alma
De quem empunha o fuzil
Na tentativa de me cercear.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

medidas exactas


Queria poder parar o tempo
No exacto instante do teu beijo
Sentir nos lábios que me ofertas
Um suave e eterno desejo

Também ele assim parado
Na exacta medida do restolhar
De dois corpos que se unem
Com fome e sede se querem amar

Queria esse beijo com a ânsia
Que espero o teu perfume
A envolvência que me arrebata
E algures em mim solta o queixume

Mesmo quando não estás
A suave espera que te faço
É a exacta medida do meu querer
Ter-te enlaçada no meu abraço

terça-feira, 23 de junho de 2009

Deus?


Será porventura breve
A passagem
Quando os olhos se me cerrarem
Por força do caixão das pálpebras
Outro me cravarão em mortalha de cedro
Não ouvirei as marteladas dos pregos
Introduzidos na catacumba do silêncio
Que enfim me envolverá.
Nada me espera, eu sei,
Que de espiritual e etéreo
Temos o amor dos vivos que nos choram.
Deus a existir não me quererá
Por força da razão da minha recusa
Em lhe aceitar os terrenos caprichos

sexta-feira, 19 de junho de 2009

das mulheres sobre os homens


Ainda em relação ao casamento e agora vendo pelo prisma feminino, também não lhe enxergo virtudes depois da primeira semana de união. Eu sei que depois vão dizer que não, que com vocês é diferente, que continuam muito apaixonadas mas cá entre nós sabemos que não é bem assim, que se tivessem a certeza que ele não lia vocês confessavam que sonham com o Brad Pitt enquanto ele vos calca a bexiga feito um rossinante. Não me digam que não pensam nos mimos que o Patrick Swayze prodigaliza à Demi Moore no fim daquela queca no “ghost” enquanto ressona esvaido aquele barrigudo de cerveja ao vosso lado, sim aquele mesmo que vos fez fazer poemas de amor de fazer corar a Espanca. – quem precisava ser espancada era eu por ter casado com esta cavalgadura – pensam vocês que eu sei. Bem, e quando o anormal começa a comer? Enche aquela boca de feijãopreto, ri-se com os dentes cobertos das cascas de feijão dando um ar de cariado á dentadura de mongolóide que ostenta enquanto arrota para gáudio dos miudos que logo o começam a imitar dando lugar a um concurso de arrotos que as tiram do sério. Eu ás vezes compreendo porque é que quando uma gaja põe os cornos ao marido ele arma uma cena de faca e alguidar, despeja com ela na rua e promove-a a soldado raso entre as meninas que decoram a esquina lá do prédio a partir das 12.00 da noite, mas quando é ao contrário, o anormal corneia a legitima, ela arma uma cena de baba e ranho durante uns dias mas depois perdoa-lhe. Ela chora por o gajo não ter ficado com a outra, e perdoa-lhe porque ele, a pensar que ela o ama muito, dá-lhe umas quecas mais parecidas com as performances que obtinha enquanto ela lhe dedicava poemas. Mas é rápida a mudança, logo, logo ele volta ao mesmo. Provação das provações, ele vai sair com os amigos para uma noite de copos, chega bêbado e com tesão (psicológico), vocês fazem de conta que dormem para ver se o abestunto desiste mas não, ele enfia mãos e outras coisas (moles) por tudo quanto é lado e depois enjoado do balanço vai para a casa de banho vomitar, vomita no lavatório, vomita na sanita, vomita no bidé e adormece deitado no sofá da sala a acusá-las de frigidas… Haja paciência…E depois tem aquela maniazinha de não levantar a tampa da sanita e deixar aquilo molhado para o seguinte que são vocês, apertar a bisnaga da pasta de dentes a meio e deixar o lavatório todo borrado de sabão da barba… - Mas é mesmo burro, não aprende… - além de que para cuidar dos filhos tem sempre uma desculpinha, que mete nojo mudar fralda, mas esquece-se que também mete nojo ouvir e cheirar os peidos dele. Mas minhas amigas não se queixem, enquanto têm filhos conseguem sempre partilhá-lo um pouco com alguém, quando os filhos se forem embora ele vai ficar tudinho para vocês e aí nem a vizinha do 5º esquerdo o vai querer por muito rodada que seja.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

PUSSY, PUSSY, come on in pussy lovers


Gosto muito de ver os poetas e poetisas a falar de amor, é o tema mais abordado, mais cantado, mais adorado. O amor é assim a modos que a água que nos rega e nos faz medrar se somos correspondidos, ou um pontapé entre as gambias (sim, naquele sitio!) se não é correspondido. E agora? Digam-me lá o que isso tem de poético, as senhoras podem não entender do que falo, mas os homens sabem muito bem o que custa um pontapé nos ditos cujos. Desafio esses mais choramingas que andam por aqui sempre a verter lágrimas de amor a escrever um poema com essa dor lancinante nos penduricalhos.
E direis vós: - mas não e tal, áhh porque o amor tem muitas vezes um final feliz e mais não sei quê… - pois, digo eu, eu concordo mas esses finais felizes acabam irremediavelmente com um solene “e viveram felizes para sempre”, ou seja o casal de pombinhos deu como epilogo a esse grande amor que os fez verberar poemas de paixão, um casamento, ou vá lá, uma união de facto que é mais moderno. Ou seja são burros, mais lhes valia deixarem-se andar com essas lamechices de poemazinhos para lá, poemazinho para cá, gritos surdos no peito para lá, corações trespassados para cá. Vi aqui há uns tempos em qualquer lado que se o casamento fosse uma coisa boa não eram precisas testemunhas. E depois, vamos convir que é chato, a primeira semana ainda vá lá, mas acordar ao fim de trinta anos com uma dor no maxilar que uma gaja que dorme ao nosso lado nos enfiou com o cotovelo numa das mil voltas que dá na cama durante a noite, santa paciência… mas não se preocupem, depressa esquecem a dor no maxilar ao ver o susto de mulher que tem ao lado, a dormir num ar abandonado que num poema o poeta classificaria como ar angelical, mas não… A gaja ressona que se farta, produz por baixo dos lençóis gás natural que dá vontade de mandar os Ucranianos cortarem de vez relações com os russos, aquilo dava para canalizar até à Austrália. Mas se pensa que já passou tudo, está redondamente enganado, vem aí a manhã, a derradeira provação. Bem, se ela não lhe apetecer acordá-lo e interromper o sonho delicioso que está ter num terno cavalganço com a Maité Proença já está com sorte, mas de uma coisa não se safa, ao acordar estremunhado a resmungar com o despertador, com a ciática que não o larga, aquela comichão nas virilhas que o faz ter vontade cortar rentes as jóias da família, para além de tudo isso entra na casa de banho e vê aquela mulher com quem andou a desperdiçar poemas de amor, sentada no vaso sanitário com umas cuecas de gola alta penduradas nos tornozelos, o rosto vermelho de esforço na tentativa de excretar um urubu grossíssimo que insistiu em se prender aos esfíncteres e dali não sai nem ninguém o tira exalando um cheiro nauseabundo na casa de banho exígua, que dá sentido que se chame à merda do seu quarto o pomposo nome de suite. E quando um gajo sai para o trabalho ainda querem um beijo nos beiços, não queriam mais nada pois não? Depois somos nós que já não somos românticos… mas há romantismo que resista a isto?

domingo, 14 de junho de 2009

Um menino que me sorriu numa tarde de chuva


Acendi um cigarro, formei uma bola de fumo na primeira baforada que expeli, o menino ofereceu-me um sorriso cariado, perante a façanha propositada para lhe desapertar o laço da língua, ficou assim com o sorriso castanho desenhado, olhitos brilhantes, pele já macerada:

- Queres uma chiclete? – Perguntei-lhe. Abanou um dos ombros como que passando para mim essa decisão, a de ele querer ou não. Eu decidi que sim, e mandei o Jorge dar-lhe a chiclete.

- Diz obrigado ao senhor – Ordenou a mãe numa tentativa de demonstrar que lhe ensinava boas maneiras. O menino desenhou de novo o sorriso primeiro para a mãe, depois para mim. A mãe desenhou outro sorriso, este farseiro de dente em falta, numa aparente disponibilidade que recusei com um desviar de olhar, virando-o de novo para o menino que acorria já ao chamamento da mãe. A rua desenhava-se nevoeiro dentro, salpicado pelos aguaceiros, indolentes as imagens desapareciam à medida que caminhavam. Caminham sempre as imagens, vêm não sei de onde mas sempre em rota de fuga no nevoeiro que as adensa. Até ao sorriso do menino… Adivinho-lhe o sumiço.O cigarro esquecido entre os dedos queimou-me as falanges.

- Vens? – Perguntou-me um amigo que me esperava para almoçar

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Amor vertido pelo chão


Arrancas-me os botões
Em pressas compassadas
Espalhas pelo chão o amor
De suspiros e lágrimas brotadas
Desarrumas-me os sentidos
Vertes-me a alma aos teus pés
Um desarranjo consentido
Entre cadeiras, sofás e canapés
Arrastas-me para a tua cama
Vertes a tua alma no meu corpo
Desenho-to e rasgo-te em linho
Debruo-te a martelo e escopro
Emaranhado de suor, sol e lua
Não descrevem o paroxismo,
Não vertem corpos escaldados,
Verto-te eu no ventre, meu abismo.
Entro sol alto, saio lua cheia
Que ilumina o meu andar
Felino esgueirado nas sombras
Seguido pelo teu doce olhar
Rasgos de corpos vertidos
E nascidos para se amar
Consentido pelo chão
De um amor por arrumar

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Não vás para longe


Não te escrevo há tanto tempo
Que me morde de ti a saudade
Colaste-me na doce lembrança
Ferras-me o amargo da contrariedade
De saber que algures te possuo
De sentir que a mim te queres dar
Adivinhar-te em doce espera
Do beijo que em ti vou poisar
Distância efémera, a que nos separa
Afago cálido, eterna esperança
De em cada partida que encetas
Seja o regresso a doce confiança

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Aquele amor de verão


Naquele verão em que te conheci
Na praia ventosa e desmaiada
Aos pés da serra que se escondia
Da tua bela figura apetecida

Encoberta pelo nevoeiro da manhã
Espreitava entre as nuvens lá no alto
Meu olhar envergonhado e tímido
Meu coração em sobressalto

Deixavas as pegadas na areia
Leve como a brisa que cheirava
Contentava-me tão só em beijar
O chão que o teu pé pisava

Olhava as ondas que desfaleciam
Na praia, nesse terno verão
Sentia-me essa vaga compassada
Maré cheia da minha paixão.

À noite junto ao velho barco
Com a lua como testemunha
Contava as estrelas, com os beijos
Que a tua boca na minha punha

Vejo ainda em contra luz
Na madrugada rarefeita,
Do teu corpo entrelaçado
No meu, em felicidade perfeita.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dia europeu do(a) vizinho(a)


Eu estou admirado, então onde estão aqueles que acorrem a lembrar-nos dos dias temáticos? É o dia dos namorados já andam uma semana antes a poluir o site com poemas inflamados dedicados aquela (e) a quem andam a fazer olhos de carneiro mal morto. Vem a Páscoa então…é um autêntico lixo virtual. E no natal? Lembram-se todos de ser bonzinhos, é paz e amor para aqui, menino nas palhinhas para ali… prolongam aquilo ao máximo do desespero e da paciência. Já para não falar daquelas coisas de cortes de energia, de andarmos todos de bicicleta, essas então moem-me o juízo. E então hoje? Ninguém diz nada? Pois é… hoje é o dia europeu do vizinho. Por isso a besta do meu vizinho do 2º direito hoje me cumprimentou no elevador. Eu resmunguei-lhe uma resposta á laia de cumprimento, uma forma de o mandar para o raio que o parta em surdina. Pois, tem que ser em surdina que o gajo é um autêntico armário. Mas agora percebi a insistência da vizinha do quinto esquerdo numa visita minha logo á noite que o marido está deslocado para as obras de um qualquer centro comercial lá para os lados de Lisboa (que aquela gente só quer centros comerciais). Tenho para mim que me vai obsequiar com um dia dos namorados antecipado em jeito de celebração por tão bonito dia. Por isso hoje decidi ser simpático com os vizinhos, não escarrar na entrada do anormal do 6º direito que estende a roupa por cima da minha. Não dizer á velha esclerosada do 4º frente o quanto me irritam os gatos dela e o chilrear dos periquitos que põe na varanda. Não riscar o carro do paspalho do R/C que gosta de o estacionar debaixo daquela árvore que dá sombra á qual tenho direito porque vivo lá há mais tempo. Hoje, mas só hoje e por ser o dia que é, não vou dizer aos meus fedelhos para mijarem da varanda para o terraço do abstunto do r/c que se me adiantou na compra do apartamento perdendo eu a oportunidade de ter uma churrasqueira no apartamento, além de que um terraço dá sempre jeito para esticar uma rede e bater umas sornas á tarde. Hoje se partir o retrovisor do gajo que tem lugar de garagem ao lado do meu, vou tentar pô-lo direito e aí sim, se não conseguir não ficarei com problemas de consciência por não lhe deixar um bilhete a avisar. E para celebrar até estou a pensar em fazer-me convidado para comer uma fatia de bolo no fim do trabalho na casa do bigodes do 3º dir. e depois para fechar o dia em beleza vou fazer a visita á tal vizinha, coitada que se deve sentir tão só… Só espero que tenha feito a depilação.
Eu sou um vizinho fantástico…

domingo, 24 de maio de 2009

Ser pobre um dia...


O João da Nora trabalha no campo
Rompe a pele em cabo de enxada
Trabalha também na fábrica
Rompe os pulmões até de madrugada

Respira a bosta de boi durante o dia
O amoníaco ácido durante a noite
Que lhe queima os pulmões e o cérebro
A jorna acaba dorida como um açoite

Leva na lancheira o pão e a tristeza
Por todos os poros arrota desgraças
Já não é novo, ele sabe-o e sente-o
Roga ao Senhor, lhe traga novas graças

E não pede muito o João, velho
Embora de idade seja novo
Pede o direito á diferença
Entre os velhos deste povo

Fecha os olhos ajoelhado ao Altar
E pede a graça de ser pobre um dia
Para que assim não o seja todos os dias
Que lhe renove uma vida sem agonia

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Oh Danny Boy over the green fields of our beloved Ireland


Ès Celta Danny Boy
Vens lá dos confins da história
Orgulhoso dos verdes campos
Da tua Irlanda pátria e glória.

Levanta a cabeça Danny Boy
Não cai sobre ti a vergonha
Continua a tua marcha de orgulho
Mostra-nos a tua face risonha

Menino pobre acolhido
Pela igreja que te traiu
Escravo, te fizeram e possuíram
Na casa que te instituiu

Ergue-te Danny Boy
Que não é tua a peçonha
Tua, são os verdes da Irlanda
Que verguem eles a feia carantonha